sexta-feira, 7 de abril de 2017

O desprezo velado dos pais para com os filhos

Toda criança tem o direito de brincar. Isso é um fato. Porém, existe uma característica interessante na evolução dos brinquedos e brincadeiras das crianças nos últimos anos, principalmente os eletrônicos, que é a pouca socialização – seja com outras crianças, ou mesmo com os pais.
Não somente a brincadeira, mas praticamente toda atividade infantil planejada pelos pais e/ou outros adultos, visa uma coisa especificamente: deixar a criança quieta, imóvel e, de preferência, longe dos pais para não “torrar a paciência”. É possível constatar isso ao analisarmos que as crianças de hoje em dia têm poucas brincadeiras pedagógicas, ou seja, brincadeiras úteis ao seu desenvolvimento – seja cognitivo, seja motor; ficando mais imóveis, reprimindo o desenvolvimento da personalidade.
Fala a verdade, papai e mamãe, ao comprar um brinquedo para o seu filho, você se pergunta se tal brinquedo será útil ao desenvolvimento do seu filho? Usarei o mais palpável dos exemplos: o videogame. Por que você comprou ou quer comprar um videogame para sua criança? Muito provavelmente você me responderá com pelo menos uma das seguintes alternativas:
a)     É melhor ficar jogando videogame do que ir para a rua estar com maus elementos aprendendo o que não presta (e o jogo ensina algo que presta?);
b)     É bom ele(a) ficar jogando, fica tão quietinho, bom que faço minhas coisas.
c)      É bom que não fica me perturbando para fazer coisas com ele. Tudo está programado.
Bom, existem n motivos que você pode dar para comprar um videogame para a sua criança, mas, muito provavelmente, todos esses motivos girarão em torno de deixar a criança longe de você. Não é verdade? Infelizmente os pais não pensam se o videogame será bom ou não para a criança, se determinado jogo faz bem ou mal, se é indicado para a idade do filho, o tempo em que a criança passa diante da tela... Nada disso importa. O que importa é imobilizar esse ser para que não me faça assumir a responsabilidade de pai/mãe e estar presente na vida dele.
Ser pai, ser mãe, é muito mais do que gerar. Muito mais. É estar junto, é educar, é amar. Não se despreza o que se ama. Então por que há pais que desprezam seus filhos? Talvez seja uma ação inconsciente, mas ela existe e está se impregnando na nossa cultura. Antigamente as famílias se reuniam para jantar, e após, conversavam; hoje, cada um come em um lugar da casa e não há reunião após a refeição, papai e mamãe vão assistir novela na sala, e as crianças desenhos ou jogar videogame no quarto. Antigamente o papai ou a mamãe liam histórias para os filhos; hoje, no entanto, põe um Dvd com uma história bem estranha e imprópria. Antigamente papai levava os meninos para jogar futebol; hoje, no entanto, dorme até mais tarde, e os meninos jogam Fifa ou PES no videogame. Antigamente... Bom, são muitos os exemplos.
Os pais estão terceirizando a educação dos filhos em todos os aspectos. Há crianças que desde a mais tenra idade vão para as creches sem a mínima necessidade, simplesmente para dar mais comodidade aos pais. E quando digo sem necessidade é me referindo aos casos em que um dos pais não trabalha e fica o dia no lar. A própria escola é um desses “abandonos”, uma vez que o pai outorga ao Estado ou a instituição de ensino contratada o dever de educar os filhos, sem nem ao menos se dar ao trabalho de verificar o que estes tem aprendido na escola. Muitas escolas ensinam imoralidades e ideologias, mas os pais estão pouco se lixando, pois a escola adquiriu um caráter além do de ensinar: o de dar “paz” aos pais em pelo menos um turno do dia. Tanto é verdade que a possibilidade de aumentar as escolas de tempo integral é um alvoroço só. Comemora-se como um título de Copa do Mundo! Se uma manhã ou uma tarde sem criança em casa já é bom, imagina o dia todo fora? Quando chegar a noite segue o esquema de cada um para seu canto e... Bom, quem educa a criança: você, ou terceiros?
Depois que comecei a estudar Pedagogia passei a ter um olhar observador para com as crianças e seus pais. Olhar o desenvolvimento das crianças me fascina. Mas, infelizmente, vejo o quanto a negligência dos pais e pseudo educadores atrapalha o sadio desenvolvimento da personalidade infantil.
Conheço um caso muito interessante para servir de exemplo. Há uma mãe de um filho único que vive gritando com o filho. A criança é ágil, ou seja, gosta de estar agindo, isso é sadio. Mas a mãe quer um filho paralisado. Se a criança brinca com um brinquedo que vem a quebrar, a pessoa berra para com a criança. Como ela fica impaciente com a criança, ela descobriu um método: dá o celular para a criança de dois anos ficar assistindo desenho ou “jogando”. Isso mesmo, dois anos. E fica lá a criança paralisada diante do brilho de um celular, tendo a personalidade sufocada, porque a impaciência de uma mãe não faz ver a necessidade da criança, que quer afeto, amor, presença, atividades úteis para seu desenvolvimento. Essa mãe por vezes inventa as desculpas mais esfarrapadas para levar sua criança para uma outra casa onde há uma criança, que nem se dão muito bem, diga-se de passagem, mas ela leva mesmo assim, pois quer “descansar”.
Eu entendo que a educação dos filhos dá um trabalho enorme. Por isso escrevo este texto com um tom mais duro, justamente para que entendam que ser pai ou mãe não é uma questão de status, de fotos em redes sociais, mas uma vocação, uma responsabilidade. Tirar fotos belas e fingir felicidade em rede social é fácil, difícil é amar e estar presente na vida dos filhos verdadeiramente.
PORÉM, evite cometer o desprezo maior que é o não ter filhos. Afinal, é melhor ter filhos e ter trabalho por não desprezá-los, do que desprezá-los evitando tê-los. Infelizmente a sociedade de hoje evita os filhos de duas maneiras: uma é a exposta acima; a outra é impedindo que as crianças nasçam. Ora, muitos pais reclamam não ter tempo para brincar com os filhos, e, de fato, não estou dizendo que devemos brincar 24h com os filhos; mas, por outro lado, se fossem mais generosos e tivessem muitos filhos, eles teriam irmãos mais ou menos da mesma idade, que gosta das mesmas brincadeiras, e teriam uma sadia socialização. Os nossos avós não tiveram muito problema com carência afetiva – no sentido de se sentirem desprezados e/ou não conviverem com outras crianças e adultos.


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