quinta-feira, 20 de abril de 2017

Educação com autonomia, mas sem liberdade

Como todos sabem, a paternidade/maternidade atrai sobre os pais a responsabilidade da educação da prole. Essa responsabilidade é tão importante, que um ditado popular muito usado dizia que “pai é o que cuida (educa), não o que faz”, elogiando a atitude daqueles homens que, ao casar-se com uma mulher que já havia tido filho de outros relacionamentos, assumiam a responsabilidade de educar tais crianças.
A educação dos filhos é para os pais, mais que um direito, mas uma obrigação inalienável, ou seja: não se deve terceirizar a educação. A responsabilidade da educação é dos pais. São os pais que irão responder diante de Deus pela boa ou má educação dos filhos. E mesmo que você, caro leitor, seja um ateu convicto, você é responsável pela educação dos teus filhos, e mesmo nesta vida terá que responder pela boa ou má educação deles, pois o adulto de amanhã será fruto da criança que plantamos hoje. Obviamente, na fase racional, um filho pode escolher outro caminho, afinal, o ser humano tem o livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal.
Dito sobre a responsabilidade dos pais, quero então fazer uma pergunta: como vocês – pai, mãe, colaboradores - estão educando as crianças?
Há várias teorias sobre como educar melhor os filhos. Os livros voltados para a Pedagogia e, principalmente, para a Psicologia Infantil, vai nos superlotar de ideias sobre como melhor proceder na educação. Isso é muito bom; porém, esconde um grande perigo. Nem tudo que reluz é ouro, da mesma forma que nem tudo que se diz “isso é melhor para a educação” de fato é, portanto, é necessário refletir, investigar, pois se poderá estar estragando o futuro dessas crianças com métodos modernos, mas, por outro lado, horríveis.
Para servir de exemplo quero citar a tão comentada liberdade e autonomia. Quem nunca leu na internet ou assistiu uma reportagem de “especialistas” dizendo que as crianças tem que ter liberdade e autonomia? Do século XX para cá esses termos foram deturpados do real sentido pedagógico, tirando, obviamente, sua real eficácia. De fato, as crianças precisam ser educadas para a liberdade do desenvolvimento do seu espírito, da sua personalidade e, como não poderia deixar de ser, para a autonomia, para não ser dependente dos pais e/ou responsáveis em tudo. Porém, o que se pode dizer do que é visto na prática, é que para os pais “modernos” autonomia e liberdade tornaram-se sinônimos de criança livre para fazer o que quer, doa a quem doer. É por isso que podemos dizer, porém com tristeza, que a nova geração tornou-se a geração de criança mal criada – com suas exceções, obviamente.
Os pais precisam aprender o que realmente vem a ser uma criança autônoma, caso contrário, continuaremos a ver crianças desaforadas que não têm limites dos pais, mas crescem tentando acabar com essa hierarquia.
A liberdade que os pais aplicam para as crianças hoje é a maléfica, ou seja, é a “pedagogia” do deixar solto, o não ter limites. Portanto, não há nenhuma relação com a liberdade para o desenvolvimento do espírito infantil, como bem desejava Maria Montessori. Sendo assim, para os pais de hoje, é necessário assumir a responsabilidade de uma educação para a autonomia, e não para a liberdade. Se você cria seus filhos na liberdade, com rédeas frouxas, você precisa mudar a ação para uma educação para a autonomia.
É extremamente necessário compreendermos que autonomia e liberdade não são sinônimos. Uma criança com liberdade é aquela que dorme na hora que quer (2h da manhã, por exemplo), não tem hora para acordar, dá birra e o pai e a mãe chora junto querendo saber qual o desejo do deus-mirim para realizar prontamente. Também é característica de assistir o que quer, mesmo conteúdo impróprio, senão terá birra. Uma criança que vai crescendo sem limites vai se tornando um jovem mimado, materialista, que só pensa no “seu umbigo”. A liberdade sem limites faz da criança, por exemplo, não querer estudar “porque isso não faz parte do gosto dela”; jogar videogame o dia todo sem responsabilidades; desobedecer aos pais; não ajudar nas tarefas de casa conforme for crescendo. Na juventude a coisa piora: não assume as responsabilidades, sai e volta para casa na hora que quer e, muitas vezes, até agride os pais física ou verbalmente por serem “livres” e “irrepreensíveis”.
A autonomia, muito pelo contrário, faz com que a criança aja sem a necessidade de estar “agarrado à barra da saia da mãe”. Uma criança que é autônoma é aquela que, mesmo pequenina, ao aprender a escovar os dentes, vai fazer isso sozinha sem necessidade de o pai ou a mãe fazer por ela. Quer beber água? Ela sabe pegar o copo sozinha e beber a água. Com uma idade maior, a criança autônoma é capaz de agir, ajudar, realizar atividades. Um jovem que teve uma educação autônoma vai exercendo as suas responsabilidades. Um jovem autônomo é diferente de um que foi/é mimado e/ou superprotegido.
Para compreendermos a diferença de uma criação autônoma para a liberdade que se prega hoje, usemos o seguinte exemplo: suponhamos que um casal tenha tido gêmeos; um criado de maneira autônoma, o outro foi “mimadamente” educado de maneira livre. Quando os filhos fizeram seus quinze anos de idade, aconteceu que certo dia os pais, que trabalham fora, pegaram um tremendo engarrafamento na volta para casa, e não chegaram no horário. Por conta do atraso, não teve quem fizesse o jantar. O filho autônomo, ao chegar em casa, morrendo de fome, percebeu que não tinha nada pronto para comer. O que ele fez? Ele mesmo começou a preparar o jantar para a sua família, pois reconhecia os esforço dos pais, e sabia que se esperasse estes chegarem, ficaria muito tarde para o preparo – além do cansaço que os pais deviam estar. Isso é autonomia, não depender do outro. Você deve estar se perguntando onde está o filho criado com liberdade, não é mesmo? Ele está na porta da escola chorando, xingando os pais em áudio no Whatsaap porque os pais cometeram o crime de se atrasar e está deixando ele a espera. Quando os pais pegam este “amável” filho, comentam que ainda terão que fazer o jantar... Ao ouvir isso, o rapaz começa a dar escândalo, dizendo que não aguenta a irresponsabilidade dos pais que, que vai morrer de fome. Exige, aliás, que comprem uma pizza. Em casa dá chilique, e, após se controlar, pede para os pais dinheiro para comprar o ingresso do ídolo Pop dele. Os pais, por causa da crise, disseram não; o filho, por sua vez, dá outro escândalo, bate a porta do quarto, e vai jogar um jogo no seu PS4 após dizer “odeio meus pais” no Twitter.
Essa história parece familiar? Talvez a ação do filho com liberdade seja a mais comum nos dias de hoje, afinal, é o resultado de um estilo de criação – que precisa ser mudado.
Preciso reconhecer que muitos pais não desejaram tornar seus filhos assim. Mas também tenho que dizer que há culpa nos mesmos, pois fazendo do fato de ter filho simplesmente uma consequência de um ato sexual, ou seja, faz sexo, dá a luz, e compra comida e umas coisinhas para distraí-los para não nos perturbar. Infelizmente é assim. Recomendo que leiam um artigo que escrevi chamado O desprezo velado dos pais para com os filhos, onde elucido que os pais desprezaram os filhos ao colocá-las diante da TV, dos videogames, tirando-as do convívio com eles mesmos. Enquanto a criança está jogando videogame, eu faço minhas coisas sem ser interrompido. E os pais nem se dão conta que muitos jogos, programas, filmes, que eles mesmos dispõem para os filhos assistirem, deforma a personalidade das crianças. Esse largar a criança, deixando ela livre para fazer e ver o que quiser, entregue numa cultura consumista, é um dos fatores que tem gerado tantas crianças mal criadas e dependente dos pais (ou do que os pais podem comprar).
Por fim, desejo comparar a minha geração com a geração dos meus avós. Embora fosse uma educação mais rígida, em determinados pontos, os pais davam mais autonomia para os filhos do que os pais de hoje. O casamento em si é o melhor exemplo para confirmar isso. Completei há pouco 25 anos de idade, e se eu fosse me casar hoje, apareceriam pessoas dizendo que ainda sou jovem, que devo primeiro me formar, ficar rico, e quando chegasse nos trinta anos, me casar. Olhemos para cinquenta anos atrás, e veremos, no entanto, homens casando com 18, 19, 20 anos, e mulheres casando com 14, 15 anos de idade. Mas há um detalhe: eles eram autônomos. Com 18 anos de idade, um rapaz era de fato HOMEM e colocava comida dentro de casa, sustentava a família; hoje, um adolescente (antes não se usava muito esse termo) de 18 anos não coloca sequer a comida no próprio prato, depende da mãe para pôr, e, quando vão para algum canto, não tem autonomia para dizer o que quer ou não comer. Com 15 anos uma jovem era de fato mulher, cuidava do lar, dos filhos, trabalhava... Hoje com 15 anos só sabe chorar por causa do “Crush” – termo utilizado para denominar um paquera - cantar música ruim, e ir para o shopping center. Eu não digo que não sabe cozinhar, porque nem sequer comem... Daqui a 20 anos vão viver de fotossíntese.
Antes que me chamem de machista, não é que fosse uma “obrigação” a mulher cozinhar, pois o homem também se virava. O homem e a mulher se complementavam, ambos assumiam responsabilidades. Um homem de 20 anos casado com uma mulher de 16 poderiam viver sem dependência total dos pais. Às vezes o marido e a esposa iam trabalhar na roça, mas construíam sua vida. Hoje, o resultado de uma educação livre, que conduz para o hedonismo, faz com que o rapaz tenha relação sexual com a jovem antes de casar (aliás, nem pensa nisso), e depois que a moça engravida, os avós é que têm que cuidar... Alguns casam, mas são os pais dos recém casados que os mantém. Claro, há casos em que se faz necessário a ajuda, porém, o que é comum é a irresponsabilidade dos jovens que só querem prazer e não fazem nada para assumir suas responsabilidades.
-Engravidou minha filha? Vai ter que trabalhar para sustentar!
-Trabalhar de quê, tio?
-O que você sabe fazer?
-Jogar Play Station.
-Vai entregar um currículo. Você fez até que série?
-Nem lembro... Não ia muito à escola, pois era mais “da hora” ir pro baile funk. Aliás, foi lá que conheci sua filha...

Essa é a nossa geração. É preciso mudar essa triste realidade. Citei este exemplo da gravidez entre os jovens, sabendo que é algo bastante comum. O que a mídia, o governo, e muitas vezes os próprios pais fazem para mudar a realidade? Ao invés de levarem os jovens a terem espírito de responsabilidade, a fazerem sacrifícios por um bem maior, distribuem camisinhas e incentivam o uso. Consequência: continuam agindo no prazer pelo prazer.
Se você leu este texto até aqui, deve ter percebido que comecei falando de educação infantil, dizendo que termos que educar as crianças para serem autônomas, que é diferente da liberdade que é comum vermos hoje em dia. E por fim, falei dos jovens e da banalização da sexualidade. Não é falta de coesão e/ou coerência no texto. É porque o jovem e o adulto de hoje, são consequência da criança de ontem. Se a criança cresceu sem limites, simplesmente buscando seus prazeres temporários, na juventude ela agirá da mesma forma. Se a criança não é autônoma, e não assume responsabilidade nenhuma (não faz tarefas domésticas, por exemplo, condizente com a idade, obviamente), crescerá um jovem que não sabe fazer nada, que não consegue agir sem o amparo dos pais.
Ps: se na minha geração as pessoas casam cada vez mais tarde, não é simplesmente por uma escolha. É porque são irresponsáveis. Foram educadas para a irresponsabilidade. Se os que casam estão divorciando mais, não é porque o casamento é uma instituição falida, mas é porque quando um dos dois que casaram foram criados dessa maneira “livre”, para a irresponsabilidade, normalmente o fracasso é comum. Portanto, não me venham com essa de que essa geração não quer casar... As mulheres reclamam de homens que sejam HOMENS; os homens reclamam mulheres que sejam MULHERES. Entenda, em essência. Homens e mulheres responsáveis no seu ser. O que se tem hoje são homens e mulheres deformados em sua personalidade por uma educação permissiva. Se quisermos salvar as famílias, a sociedade, eduquemos as crianças. A infância é o futuro do mundo.


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