terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Vaticano II e a liberdade religiosa - pregar ou não pregar?

Salve Maria Imaculada, nossa Corredentora e Mãe!
É comum lermos textos e assistirmos vídeos dos críticos do Concílio Vaticano II afirmarem que o CVII relativizou a fé, dizendo que a Igreja pós conciliar prega que não é necessário se converter à Igreja Católica, que a pessoa tem que seguir sua liberdade de consciência. Este é mais um típico exemplo de uma má interpretação do texto do CVII, colocando termos fora do contexto usado e, não poucas vezes, utilizado de má fé por inimigos da Igreja.
Na Declaração Dignitatis Humanae, que fala sobre a liberdade religiosa, não fala em nenhum momento que os não-cristãos não devem se converter, ou mesmo que os católicos não devem fazer ações missionárias para pregar o Evangelho para estas pessoas; afirmar isso seria uma incoerência grotesca, afinal o CVII também proclamou o Decreto Ad Gentes, que vai falar justamente da atividade missionária da Igreja, falando a todo o momento da importância de se pregar o Evangelho aos não-cristãos. Portanto, não se pode pegar um documento do CVII e interpretá-lo fora de contexto, isolando-o, a seu bel prazer.
O Concílio disse sim na Dgnitatis Humanae sobre a liberdade de consciência, liberdade religiosa. Só que ele não afirmou no sentido em que muitos espalham por aí. Para quem lê o referido documento com intenção reta, constata que a Igreja está falando num contexto CIVIL; ou seja, ela está falando que todos têm o direito de seguir a sua consciência em relação a religião, desde que, obviamente, não fira a moral (como alguém que pratica satanismo e quer matar pessoas em sacrifícios, obviamente, neste caso, a pessoa deve ser punida).
É, portanto, uma injustiça contra a pessoa humana e contra a própria ordem estabelecida por Deus, negar ao homem o livre exercício da religião na sociedade, uma vez salvaguardada a justa ordem pública. (Dignitatis Humanae, nº 3)
A Igreja, portanto, está falando de algo em ordem civil, ou seja, que todos tem o direito de professar sua fé sem ser incomodados pelo Estado. Para você talvez seja difícil de compreender isso, mas você precisa colocar o próprio CVII dentro de seu contexto histórico. O Concílio aconteceu na década de 60 após duas grandes guerras e regimes comunistas. Aliás, o muro de Berlim mesmo que dividia a Alemanha só foi cair em 1989. O Socialismo/Comunismo ficou marcado pela perseguição à religião. Karl Marx disse certa vez que a religião era o ópio do povo. Ao contemplar a história, observamos que no século XX iniciou-se regimes totalitários, ateístas, que perseguiam a religião. Muitos cristãos foram assassinados onde se estabeleceu o socialismo/comunismo. Na própria guerra civil espanhola podemos ler o massacre aos católicos, onde teve mulheres que foram mortas simplesmente por serem mães de padres jesuítas, outras pessoas fuziladas por trazerem objetos religiosos como medalhas e crucifixos. Houve também perseguição a outros credos e povos; o mais famoso o holocausto alemão, a barbárie de Hitler ao perseguir e matar milhões de judeus. Na África, Oriente Médio, Europa, nas Américas, na Ásia, enfim, em todos os continentes é possível observar no decorrer do século XX guerras e revoluções, e muitas das vezes pessoas que morreram por professar uma fé. Um exemplo bizarro é a Coreia do Norte, onde não somente o cidadão tem que aderir a religião do ditador, mas o próprio ditador é tido como um deus.
O Concílio Vaticano II, portanto, em nenhum momento está dizendo que todos são livres para seguir o credo que quiser sem precisar se converter, que todos serão salvos e livres do inferno seguindo qualquer religião. Quem ler os documentos com sinceridade perceberá que o que a Igreja fala é no contexto civil. O Estado não pode impedir um católico de ir à Missa; mas também não pode impedir o protestante de ir para o culto dele, ou o judeu de ir à sinagoga, o espírita de ir ao seu centro, etc. Por mais que nós não concordemos com a prática religiosa de quem está nessas outras doutrinas, até mesmo prevendo o malefício espiritual e as consequências que trará na eternidade, o Estado não pode OBRIGAR ninguém a seguir um credo específico. Mesmo onde o Estado tem uma religião oficial, uma coisa é ter uma religião oficial, outra é impedir que os cidadãos professem outra fé. Se o Reino Unido impedir um inglês de abandonar a religião anglicana para abraçar o catolicismo romano, seria um crime contra a dignidade humana. Pois todos são livres para seguir a sua consciência. Entende agora, caríssimos?
Em todo a Dignitatis Humanae podemos perceber que a Igreja está falando que ninguém pode professar uma fé de maneira coagida. A impressão que muitos têm é que os rad-trads queriam que o CVII proclamasse que todos os não-católicos já estão condenados aos quintos dos infernos; ou então que se fizesse uma cruzada com metralhadoras e  gritos de “ou vocês se tornam católicos, ou morram”. Em suma, muitos queriam um “Isis Católico” que espalha o terror. Afinal, dizer que os Bispos Conciliares se equivocaram ao proclamar o referido documento, é dizer que na verdade a liberdade religiosa é um erro e que se deveria, a exemplo do Estado Islâmico, espalhar o Reino de Deus não pela pregação do Evangelho seguida de livre aceitação do mesmo, mas através das armas e terror. O Islamismo se manifesta falso justamente porque se espalha não pela força da verdade (pois é uma mentira), mas pela força das armas, do terror, do medo. Enquanto o cristianismo cresceu justamente ao contrário, pelo derramamento de sangue. Quanto mais se matava cristãos, mas a Palavra de Jesus Cristo se espalhava pelo mundo e convertia as pessoas.
É por isso que a Dignitatis Humanae afirma que “o fermento evangélico trabalhou assim longamente o espírito dos homens e contribuiu muito para que eles, com o decorrer do tempo, reconhecessem mais plenamente a dignidade da sua pessoa e amadurecesse a convicção de que, em matéria religiosa, esta devia ficar imune de qualquer coação humana na vida social.” (nº 12. Grifo meu). Ora a Igreja, portanto, não fala em seguir qualquer religião e ser salvo, mas sim que ninguém deve ser coagido a ser católico. Eu não sou católico por coação, mas porque livremente abracei a fé Apostólica. Ninguém deve ser feito católico por coação, a exemplo de tantas religiões, mas por sua consciência.
O sagrado Concílio declara igualmente que tais deveres atingem e obrigam a consciência humana e que a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte. Ora, visto que a liberdade religiosa, que os homens exigem no exercício do seu dever de prestar culto a Deus, diz respeito à imunidade de coação na sociedade civil, em nada afeta a doutrina católica tradicional acerca do dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo. (Dignitatis Humanae, nº 1. Grifo meu.)

Este trecho citado acima deixa claro que a intenção do Concílio em promover a liberdade religiosa não é desobrigar o homem moderno de se converter ao catolicismo, mas mostra que tudo o que se fala de liberdade religiosa deve ser lido no contexto da sociedade civil. Não podemos querer obrigar as pessoas a serem católicas, pois, como afirma o CVII, a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força.
Podemos encontrar na própria Sagrada Escritura a liberdade religiosa. No livro do profeta Daniel lemos que o profeta, mesmo com um rei pagão, seguia ao Deus verdadeiro. Os adversários de Daniel fizeram o rei proclamar um Decreto impedindo que se adorasse o Deus verdadeiro. Nós sabemos o final da história: Daniel foi jogado na cova dos leões, mas, por uma graça de Deus, não foi devorado e deu testemunho. Este é um exemplo de alguém que não respeito a liberdade religiosa (o rei). Mas, após libertarem-no, podemos contemplar a liberdade religiosa de Daniel que servia ao seu Deus mesmo rodeado de pagãos. Há vários exemplos disso nas Sagradas Escrituras. Jesus Cristo mesmo não veio como um Rei armado com espadas para conquistar o mundo pelo derramamento de sangue, mas sim para salvar este mundo com o derramamento do Seu próprio sangue na Cruz. Ele ensinou para os Apóstolos que eles deviam pregar o Evangelho a toda criatura, e que quem fosse batizado seria salvo, e quem não fosse batizado seria condenado; mas não disse, todavia, que quem se recusasse ser batizado devia ser morto. Não, devemos, pois, respeitar a liberdade individual de cada pessoa, mesmo que a escolha desta seja a danação. Afinal, mesmo que alguém aceitasse o batismo, porém por coação, alcançaria a salvação sem crer no coração?
Portanto, pregar um ódio aos não cristãos não resolverá os problemas, caríssimos. Dizer que ninguém é livre para seguir sua consciência ao invés de aproximar as pessoas, afastaram-nas. Afinal, repito, o CVII foi realizado após grande perseguição aos judeus e aos próprios católicos. Uma outra Declaração, Nostra Aetate, é bastante criticada por ter saudado as religiões não-cristãs. Ora, após todos os acontecimentos do século XX até então, o que vocês queriam que a Igreja falasse?
Para quem ler a Nostra Aetate com retidão, percebe que em nenhum momento a Igreja está isentando-os de conversão. Simplesmente prega a paz entre as religiões, confirmando que ambas têm diferenças doutrinárias, mas não é por isso que devemos matar uns aos outros. Eu não concordo com o Islamismo, nem com o candomblé, nem com o espiritismo, nem com as outras religiões não católicas, mas, todavia, não é por isso que eu vou entrar com uma metralhadora num templo não católico para matar todos os pagãos e hereges. As diferenças não devem levar à matança!

Sementes da Verdade
Algumas pessoas acham um absurdo a Igreja saudar tais religiões, até porque membros de muitas dessas foram e são responsáveis pelo martírio de milhões de cristãos. Porém nós não devemos ler o CVII nem mesmo a história da salvação isoladamente.
Nós, católicos, cremos num Deus Uno e Trino, e que Jesus Cristo é Deus encarnado e fundou a Igreja que é Una, Santa, Católica e Apóstola. Isso se dá porque cremos na revelação. Em Jesus Cristo se consuma a revelação, pois Ele o Deus que se revela. Mas o problema é: nem todos os povos conheceram a revelação e/ou Deus quis revelar-se plenamente.
Nós cremos que Deus criou todas as coisas, portanto, o próprio homem. Todos os seres humanos são criaturas de Deus e tem alma imortal. No coração de cada ser humano há a mesma sede de Deus. Na narrativa bíblica da criação, no Gênesis, nós vemos que o homem desobedece a Deus e é expulso do Jardim do Éden. O ser humano multiplicou-se sobre a face da terra, porém, foi afastando-se de Deus verdadeiro. Tanto que o Gênesis nos narra o dilúvio, escapando apenas Noé e sua família. Daí o homem multiplica-se novamente, e anos e anos depois, se distancia de Deus. Porém, o homem tem um vazio em si mesmo que o faz buscar a Deus. O ser humano tentou encontrar a Deus de diversas maneiras, cultuando astros, objetos, enfim, tentava encontrar uma resposta para o seu vazio existencial (por isso é interessante notar que a Nostra Aetate começa se dirigindo às religiões politeístas – hinduísmo, budismo). Porém, o homem não conseguiu (nem consegue) atingir o seu fim: Deus. Portanto, o próprio Deus manifesta-se ao seu povo por meio de Abraão (e posteriormente Isaac, Jacó; e confirmando a promessa por meio de Moisés e demais profetas). Ao próprio povo judeu o Senhor manifestou-se e prometeu um Messias, um Salvador. Eis que nos foi dado um Menino, Jesus Cristo nasceu da Bem-Aventurada sempre Virgem Maria, e anunciou a todos a salvação. Mas, infelizmente, muitos judeus não creram que Jesus Cristo era o Deus-conosco. Portanto, na Igreja Católica nós temos a plenitude da Verdade, ou seja, nós temos o Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Na Igreja Católica nós temos o Deus que se encarnou, o Deus que se auto revelou a nós, suas criaturas. Os judeus têm parte da revelação, pois não creem em Cristo, onde se plenifica a revelação. As religiões pagãs têm sementes da verdade, uma vez que de alguma maneira buscavam a Deus verdadeiro por suas forças, porém, de maneira errada. Tanto é que São Paulo ao pregar aos gregos de Atenas diz: “Homens de Atenas, em tudo vos vejo muitíssimos religiosos. Percorrendo a cidade e considerando os monumentos de vosso culto, encontrei também um altar com esta inscrição: A um Deus desconhecido. O que adorais sem o conhecer, eu vo-lo anuncio! O Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, é o senhor do céu e da terra, e não habita em templos feitos por mãos humanas[...]” (Atos 17,22-24). Ora, São Paulo em meio aos gregos viu uma SEMENTE DA VERDADE em meio a falsa religião grega. Mesmo os gregos não conhecendo Jesus Cristo, São Paulo usou desta semente da verdade para anunciar a verdade plena que está em Jesus Cristo.
Nós acreditamos, portanto, que a Igreja Católica é a religião criada pelo próprio Deus, onde Ele é adorado tal qual Sua vontade. As outras religiões (exceto o judaísmo que são filhos da Antiga Aliança), por sua vez, são religiões criadas pelos homens.
Era necessário fazer esta observação, uma vez que muitos criticam o Concílio de ter saudado as religiões não-cristãs. A bronca maior, acredito, seja a saudação feita aos islâmicos dizendo que adoraram ao mesmo Deus. Bom, de fato eles não adoram a Deus Uno e Trino, porém, na consciência deles, estão adorando ao Deus do Antigo Testamento – porém, com toda certeza, de uma maneira totalmente equivocada. Mas aí encontramos uma semente de verdade: creem em Deus Pai.
Mas o fato da saudação aos islâmicos não fere a doutrina católica, nem deveria causar escândalo, afinal o CVII não fez nada além do que já havia sido feito antes. O próprio Papa São Gregório VII escreveu uma carta ao Rei Al-Nazir (muçulmano) da Mauritânia dizendo: "Vós e Nós estamos unidos, por uma caridade peculiar, comparada com o resto das nações, pois nós acreditamos e confessamos o Deus único, mas duma maneira diferente, a Quem nós louvamos e veneramos diariamente como Criador do tempo e Governante do Mundo".
Uma coisa é a Igreja reconhecer que há sementes de verdade na busca de Deus que as pessoas fazem, e a própria pregação de paz; outra, portanto, é dizer que por isso a Igreja diz que não é preciso eles se converterem. Além do mais, mesmo que tais religiões não abracem a Igreja no caminho da Paz, a Igreja fez sua parte.
Para finalizar esta questão, quero citar ainda o Papa Pio XII, portanto um Papa anterior ao CVII, que se alegra com a paz entre os católicos e não-cristãos:
"Não queremos que passe despercebido o grande eco de comovido reconhecimento que vieram suscitar em nosso coração os augúrios daqueles que, se bem não pertençam ao corpo visível da Igreja católica, não se esqueceram, em sua nobreza e sinceridade, de sentir tudo aquilo que, ou por amor à pessoa de Cristo ou pela sua crença em Deus, os unem a nós" (Summi Pontificatus, 11).

Não-cristãos e a salvação
Uma das coisas mais bizarras que leio na internet em relação o CVII, são as declarações contra o Ecumenismo e a Liberdade Religiosa, citando coisas que não tem nos documentos do CVII. Eles afirmam que o CVII ensina que todos podem se salvar em qualquer religião, e que não é necessário aos católicos pregarem o Evangelho e ensinarem a doutrina católica para convertê-los, pois todos podem se salvar em qualquer religião. Ora, isso é uma falácia! O CVII não afirmou nada disso.
Antes de qualquer coisa, o próprio Concílio vai afirmar na Lumen Gentium:
O sagrado Concílio volta-se primeiramente para os fiéis católicos. Fundado na Escritura e Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina sobre a terra, é necessária para a salvação. Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Baptismo (cfr. Mc. 16,16; Jo. 3,15), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Baptismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar. (Lumen Gentiun, nº 14. Grifo meu).
A Igreja está dizendo, portanto, que ninguém pode ser salvo fora da Igreja, caso tenha consciência que Deus fundou a Igreja mas dela não quiser participar.
Isso nos leva ao ensinamento da ignorância invencível. Ora, uma coisa é você pregar o Evangelho para uma pessoa, mas ela obstinadamente se recusar a crer e continuar no erro; outra, porém, é uma pessoa que vive sua religião e nunca ouviu falar de Cristo, e que segue a lei moral impressa no coração do homem. Obviamente o debate teológico sobre a salvação será grandioso. Afinal, uma coisa é reconhecer que uma pessoa pode ser salva por ignorância invencível, outra, porém, é saber dizer o que é ser ignorante invencível. Bom, isso cabe a Deus que é todo poderoso e sonda os corações. No mais, louvo a Deus por ter nascido num país em que pude conhecer Cristo, por terem tido pessoas que pregaram o Evangelho e posso ser Católico Apostólico Romano.
A “ignorância invencível” é percebida implícita no Catecismo Maior de São Pio X, onde encontramos:
Mas quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja poderia salvar-se?
Quem, encontrando-se sem culpa sua – quer dizer, em boa fé – fora da Igreja, tivesse recebido o batismo, ou tivesse o desejo, ao menos implícito, de o receber, e além disso procurasse sinceramente a verdade, e cumprisse a vontade de Deus o melhor que pudesse, ainda que separado do corpo da Igreja, estaria unido à alma d’Ela, e portanto no caminho da salvação. (Catecismo Maior de São Pio X, nº 170. Permanência: Edições São Tomás, 2010.)
Fica evidente, portanto, que o ensinamento da Igreja mesmo antes do CVII é que uma pessoa em estado de ignorância invencível (sem culpa sua) pode se salvar estando fora da Igreja. O problema é que ninguém senão Deus pode dizer quem busca com sinceridade a verdade. Talvez muitos católicos não procuram, por isso tantas confusões porque as pessoas não buscam a verdade, mas apenas seus próprios caprichos. Mas, está aí o ensinamento de S. Pio X, que uma pessoa que busca com sinceridade a verdade pode se salvar. Santa Edith Stein já dizia: Quem busca a Verdade busca Deus, ainda que não saiba.
Em meio aos debates pós-conciliares as pessoas se perderam da essência da Igreja, que, como dizia o Papa Bento XVI, tinha a função de conter o avanço do inferno na Terra. E, para conter o avanço do inferno, que método é melhor do que fazer avançar o Reino de Deus? Mas, muitos preferiram consumir suas vidas em questões tolas, até mesmo se valendo do CVII para não terem que pregar aos não-cristãos, afirmando que estes são salvos. Bom, como disse, fora da Igreja há sementes da verdade, mas a Igreja ensina-nos a trazer os irmãos para a verdade plena. Um ignorante invencível tem a possibilidade de ser salvo, mas somente na Igreja Católica, corpo místico de Cristo, se tem a garantia da salvação (caso viva segundo o Mestre Jesus, e não na hipocrisia).
Isso fez com que muitos tivessem essa impressão de que as missões eram desnecessárias. Muitos passaram a crer, inclusive, que a vida religiosa deveria gastar as energias somente para lutas sociais, pois toda religião é igual e leva ao mesmo fim. Bom, isto é uma visão completamente equivocada do que o CVII disse e desejava.
Na Dignitates Humanae, ao mesmo tempo em que apoiava a liberdade religiosa, dizendo que ninguém deve ser coagido a crer em algo, a Igreja reivindica a sua própria liberdade nas nações:
Entre as coisas que dizem respeito ao bem da Igreja, e mesmo ao bem da própria sociedade terrena, coisas que sempre e em toda a parte se devem manter e defender de qualquer atentado, sobressai particularmente que a Igreja goze de toda a liberdade que o seu encargo de salvar os homens requer. É uma liberdade sagrada com que o Filho de Deus dotou a Igreja, adquirida com o seu próprio sangue. E é de tal modo própria da Igreja, que agem contra a vontade de Deus quantos a impugnam. A liberdade da Igreja é um princípio fundamental nas suas relações com os poderes públicos e toda a ordem civil.
Na sociedade humana e perante qualquer poder público, a Igreja reivindica para si a liberdade; pois ela é uma autoridade espiritual, fundada por Cristo Senhor, a quem incumbe, por mandato divino, o dever de ir por todo o mundo pregar o Evangelho a todas as criaturas. A Igreja reivindica também a liberdade como sociedade que é formada por homens que têm o direito de viver na sociedade civil segundo os princípios da fé cristã. (nº 13. Grifo meu).
A Igreja reivindica a liberdade de poder pregar em todas as nações. É evidente isso, afinal, a Igreja fala no seu “encargo de salvar os homens”. E ainda cita o mandato de anunciar o Evangelho a todas as criaturas. Portanto, respeitar a liberdade religiosa e reconhecer sementes de verdade nas outras religiões, não nos dá o direito de não anunciar o Evangelho e deixar tais pessoas no erro. Seria como ver uma criança no sertão do nordeste comendo apenas farinha com o pouco feijão colhido pela família, pobre, mas não querer fazer com que elas tenham um alimento que nutra o corpo, pois veem nelas “sementes da nutrição”. Sim, a criança comendo um alimento sem muita nutrição vai enganando a fome, mas não nutri; da mesma maneira, o homem que está nas outras religiões tem sementes da verdade, alguns alimentos, mas não nutre, não satisfaz plenamente. Então é missão de cada católico anunciar para o mundo o manjar do Reino de Deus, anunciado por Jesus Cristo.
Para evidenciar isso, farei algumas citações do Decreto Ad Gentes:

É preciso que todos se convertam a Cristo conhecido pela pregação da Igreja e que sejam incorporados, pelo Baptismo, a Ele e à Igreja, seu corpo. (nº 7).

Não basta, porém, que o povo cristão esteja presente e estabelecido num país; não basta também que ele exerça o apostolado do exemplo; está estabelecido, está presente com esta finalidade: anunciar Cristo aos seus concidadãos não-cristãos pela palavra e pela ação, e ajuda-los a receber plenamente a Cristo. (nº 15).

Procure ainda que a ação apostólica não se limite aos convertidos, mas que os operários e os subsídios se destinem equitativamente à evangelização dos não-cristãos. (nº 30).

Ora, os liberais que não querem anunciar Cristo e os rad-trads dizem que o CVII diz para não converter os não-cristãos, mas acabamos de ler que o Decreto Ad Gentes ordena que se pregue aos não-cristãos, então, caríssimos, em quem acreditar? Eu prefiro ficar com o Concílio Vaticano II. Eu permaneço com a Igreja. Sim, com o CVII e com a Igreja, e não o que dizem sobre eles.

Conclusão e sugestão
Se vimos que a Igreja não pregou a liberdade religiosa no sentido de que ninguém precisa ser católico, mas sim que ninguém deve ser obrigado a professar uma fé diferente da sua; se compreendemos que o CVII pede que se pregue explicitamente Jesus Cristo aos não-cristãos, ao contrário do que se diz por aí; por que então, caríssimos, perdemos tanto tempo com bobagens? A energia que nós gastamos discutindo essas coisas, poderíamos empregar fazendo o que o Concílio nos pediu.
Portanto, que possamos a partir de agora usar nossa energia, nossa inteligência, para anunciar a Cristo. Defenda a fé católica, anuncie Jesus Cristo na caridade e na verdade para os não-cristãos – lembrando que a maior pregação é a vida. Rezemos. Há tantas pessoas que hoje em dia sequer sabem rezar o terço... Que possamos ensinar a fé à essas pessoas, ensiná-las a rezar... Há tanta gente que poderia fazer um bem tão grande à Igreja na obra evangelizadora, mas gasta as energias lutando contra a própria Igreja atacando Papas e o Concílio que nunca leram com reta intenção.
É por isso que alguns rebeldes continuam fora do corpo, enquanto outros, como a Administração Apostólica São João Maria Vianney ganha muito vivendo seu carisma próprio sem romper com a unidade da Igreja. Estão anunciando o Evangelho, celebrando sua liturgia, pois viram – acredito eu – que para dizer que o CVII ensina que toda religião é igual, é, na verdade, querer encontrar chifre na cabeça de cavalo. Eu até entendo os que adentraram na confusão nos anos iniciais pós CVII. Afinal com a própria mídia, nas emoções afloradas, com tanta gente usando do CVII para pregar coisas contrárias à doutrina da Igreja, entendo que podem ter agido por um zelo (embora não aprecie a maneira da ação). Porém, hoje, no século XXI, qualquer pessoa pode ter acesso aos documentos do CVII e lê-los tranquilamente. Como acreditar em boatos, se tenho a verdade a minha disposição?
S. Francisco Xavier pregando aos pagãos
Portanto, se você não quiser pregar o Evangelho deva isso ao teu comodismo e, não raramente, ao teu escrúpulo. Mas não ao CVII, pois este te manda pregar o Evangelho a toda criatura.

Salve Maria Imaculada, nossa Corredentora e Mãe!

Viva Cristo Rei do Universo!
São Francisco Xavier, rogai por nós!

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