domingo, 4 de setembro de 2016

Mal comportamento infantil e a educação dos sentidos

Salve Maria Imaculada, nossa Corredentora e Mãe!
A indisciplina infantil é um tema de grande relevância ao tratarmos sobre educação. Não importa se estamos falando das crianças nas creches e escolas, ou em suas casas, sempre haverá reclamações acerca de crianças indisciplinadas, “sapecas”, que não “param quietas”, etc. Não é minha intenção abordar a moral da criança, nem tampouco dizer que ela é incorrigível, ou seja, que não devemos corrigir seus maus feitos. O que eu quero que você compreenda é o seguinte: em muitos casos a criança age de maneira      “rebelde” não porque seja ruim, mas por causa de outros fatores do seu meio.
            Se nós formos perspicazes, poderemos observar que o mal comportamento infantil está relacionado com a maneira com que a criança é tratada, seja pelos pais, seja pela escola e o toda a sociedade. Há 50 anos atrás as crianças tinham certas liberdades que lhe permitiam um sadio desenvolvimento físico-motor e da própria personalidade. Embora a realidade do trabalho duro desde cinco ou sete anos, em roças, principalmente no Nordeste e outras regiões de interior, fosse uma realidade, a forma de tratamento para com a infância e juventude era diferente. Podemos excluir o trabalho duro da nossa comparação, fiquemos com o resto: a criança ajudava os pais em casa, andava, corria, brincava na terra, subia na árvore, etc.
Hoje, porém, a educação da criança está voltada para imobilizá-la. Nós não nos preocupamos em formar um meio que proporcione um sadio desenvolvimento físico-motor da criança, mas simplesmente queremos técnicas para fazer a criança ficar imóvel e calada. A “Liga da Justiça” de muitos pais não é composto por Batman, Superman, Mulher Maravilha, mas sim pelo videogame, televisão, computador, tablet, etc. Se prestarmos atenção, em suma todos estes equipamentos vão deixar a criança imóvel. Para os pais, é um alívio: “pelo menos eles se distraem enquanto eu faço as coisas”. Além de ser maléfico para o desenvolvimento físico-motor da criança que se acostumará a ficar parada (podem pesquisar sobre isso, principalmente sobre obesidade infantil, déficit de atenção, crianças com falhas nos movimentos comuns tais como correr, pular, etc.), este tipo de educação que tende a prender a criança diante de uma tela ou num quarto se virando com um monte de brinquedos sem sentidos pedagógicos (mas que atraem pela beleza ou tem seu valor econômico), é que a criança não gastará suas energias naturais que ela tem. Se ela não gasta suas energias - porque afinal a “nova pedagogia” deu tudo às crianças: leis, brinquedos caros, e uma ideia esquisita de que as crianças não são capazes de fazer nada -, essa energia ficará guardada, e, logo, ela explodirá de uma maneira não muito agradável.
Nós, adultos, com as novas rotinas de nosso tempo, passando muito tempo sentado em escritórios, andando de carro, fazendo pouca ou nenhuma atividade física, conseguimos perceber a ação dos nossos maus hábitos na nossa vida. Aumenta a gordura, hipertensão, você percebe que é um morgado que não consegue caminhar 1km que está para morrer. Até o seu humor muda com essa situação, ou não? Agora imagine uma criança: ela se alimenta normalmente, tem saúde, logo, tem muita energia para ser gasta. Aí chega a nova educação e diz que o melhor é prendê-la, não pode se mexer muito. Logo, essa energia explodirá. E este é o efeito, caríssimos. Porque há uma diferença fundamental entre nós ficarmos parados e as crianças: elas estão em fase de crescimento físico e - lembrem-se disso! – educação dos movimentos. Sim, nós não temos simplesmente que dar coisas caras para nossos filhos, mas dar meios para que eles se desenvolvam fisicamente.
Agora imagine a situação da criança: passa o dia na escola sentada numa cadeira dura, chega em casa e não tem nada que ela possa fazer, afinal, não pode sair por causa da violência, não tem muitos irmãos (afinal, lembremos que estamos na cultura do filho único), não tem árvore, só tem uma voz que grita “fica quieto!”, enquanto o natural da criança pede movimento para desenvolver-se. A irritação acabará vindo.
Não estou aqui dizendo que devemos deixar a criança fazer o que quiser, quebrar a casa. Estou dizendo que se outrora as crianças subiam em árvore para pegar uma fruta, hoje, no máximo, sobem no sofá para lá sentar, imóvel, para ficar com o celular do papai ou da mamãe com joguinho legal. De tanto não fazer nada útil para o desenvolvimento físico-motor, temo que muitas crianças estão sendo diagnosticadas com hiperatividade, enquanto na verdade só tem energia acumulada não gasta por causa do meio em que vivem.
Isso se dá também para com crianças pequenas. Conheço uma mulher que tem um filho de mais ou menos dois anos. A criança tem um mal comportamento para com a mãe que é incrível. Isto começou a me intrigar porque sabemos que, em condições normais, as crianças são apegadas às mães, tem elas como o seu porto seguro. No entanto, esta criança manifesta certa repulsa para com ela. Observando bem, comecei a notar que o mal comportamento está na união dessa “imobilidade” forçada para com o mal exemplo. Ela traz esta criança aqui em casa, e praticamente não quer voltar para casa. O que nós fazemos aqui em casa para que ela queira ficar aqui? Nada. Só somos adultos e deixamos ela agir como criança. Deixamos ela andar, pegamos uma bolinha e brincamos (e posso notar a questão do desenvolvimento motor através dos gestos da criança que vai evoluindo após vários erros ao manejar a bola), rimos, pega uma revista velha e deixa-o riscar. Na última vez vimos sua alegria ao folear uma revista de cosméticos da minha mãe (folear, digo passando umas 10 páginas por vez) para procurar onde tinha aquele adesivo perfumado; ele puxava o adesivo e sentia o cheiro. Ele suspirava! E eu ria... E como estudante de pedagogia podia ver como é belo ver a criança naturalmente exercitando seus sentidos (tato, passando as folhas; visão, identificando os perfumes; olfato, sentindo os diferentes cheiros). Se ele vai enfiar o dedo na tomada, repreendemos; se ele vai fazer qualquer coisa que não pode, dizemos “não pode!” e resolve-se. O problema do mal comportamento dele na sua própria casa é que lá acontece o contrário: berros de “NÃO PODE!” e só. Uma criança dificilmente obedecerá ao ouvir um “não pode” quando a única coisa que ela ouve é isto. Ora, mas o que pode? Pode ver TV, DVD, etc. Todas as coisas que deixam a criança imóvel. Demos a esta criança o nome fictício de Tafarel. Tafarel, coitado, tem uma mãe que grita como o Galvão Bueno: SAI, SAI SAI DAÍ TAFAREL! Sim, o “sai, sai, sai” é exagero meu. Mas a realidade é que os gritos reais são: “NÃO PODE!”, “PÁRA!”, “NÃO, ME DÁ!”, “VOCÊ TÁ MUITO TEIMOSO. VOU PEGAR O CIPÓ!”, etc. A criança gosta de estranhos querendo evitar sua casa, porque ela tornou-se uma estranha dentro do lar. Repito: não é deixar a criança fazer o que quiser, é ter algo que a criança possa fazer naturalmente. E, neste caso específico, além da “imobilização” forçada, temos a questão do exemplo: a criança vê que a mãe ao ser contrariada só grita, berra, etc., que começa a imitar o mesmo comportamento. Aí fica a dúvida: se você quer silêncio na sua casa, você tem dado exemplo deste silêncio? Você quer bom comportamento, mas você tem mostrado para as crianças como que se deve comportar? Recomendo a leitura dos livros de Maria Montessori, e compreenderão como ela fazia para manter turmas com 40 crianças de 3 à 6 anos de idade no mais profundo silêncio. Sua técnica pode ser resumida em educação dos sentidos e o próprio exemplo; ela organizava um meio que permitia as crianças exercitarem seus sentidos, e educava-os no silencio fazendo silêncio.
Quando falo em criar um meio favorável para o desenvolvimento da criança, não me refiro a pegar seu soado dinheiro para comprar um monte de brinquedos sem sentidos. Até porque, caríssimos, sabemos muito bem que muitas crianças com mal comportamento tem ampla brinquedoteca em casa. As “Casa dei Bambine”, criadas por Maria Montessori, eram, no princípio, cheias de brinquedos, mas estes foram deixados de lado por falta de interesse da parte das crianças. Ora, será que as crianças de hoje só procuram games e tantas coisas caras porque são desprovidas de um ambiente que promova suas aptidões naturais? Não estou dizendo que as crianças não devam ter brinquedos e nem brincar; até porque o brincar é natural da criança. Porém, o próprio brincar tem que ter sentido pedagógico; o que não ocorre com alguns brinquedos. Outro dia vi numa loja um pequenino brincando com um troço que parecia um chaveiro com chaves gigante de plástico, não tinha função pedagógica alguma senão fazer barulho e para jogar no chão e ele pegar de novo, coisa que ele poderia fazer com qualquer outro objeto. Falando em jogar no chão e quebrar, quantos gritos nervosos de pais que brigam com os filhos quando os brinquedos quebram. Claro, é chato comprar o carro supercaro e depois vê-lo em pedaços. Só que a curiosidade é natural da criança, e, não podendo fazer mais nada além de ficar trancado naquele ambiente, você sabe... O que temos? Gritos, berros, broncas, surras. Mas o mais importante não: cadê o desenvolvimento físico-motor?

O mal comportamento, é verdade, pode ter raízes psicológicas (como ausência do pai ou da mãe, problema com a família como drogas, etc.), mas antes de levar em um psicólogo tente fazer o seguinte: leve-o para passear num parque; deixe-o brincar em uma área que seja possível; leve seu filho para jogar futebol; ande de bicicleta com ele; permita que ele suba em uma árvore (dependendo da idade dele, claro, e da árvore, e esteja amparando-o); ensine ele e outras crianças a brincarei de pique-esconde, pique-pega, jogar bete, bola de gude; etc. Sabe aquelas brincadeiras que você corria, procurava, andava, ria? Então, mostre para os seus filhos que existe um mundo fora da tela do computador. Mostre a eles que os corpos deles fazem movimentos sem precisar apertar nos botões do controle do videogame. E até nos casos das crianças pequenas, crie um ambiente em que ela possa se movimentar, tocar, movimentar seu corpo. Nós criamos um espaço rodeados de “nãos” para as crianças, precisamos criar algo de “sim”, de próprio, não somente para distraí-las, mas para educar seus sentidos e gastar suas energias. Tente isso, talvez dê certo. Há cinquenta anos atrás, mesmo trabalhando na roça, as crianças tinham um desenvolvimento motor extraordinário. Hoje, porém, tiraram a enxada das mãos infantis, mas colocaram algemas e mordaças. Será que não tem como evitar os extremos?

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