terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O que não pode num namoro cristão?



No Catecismo Maior de São Pio X, ao se dirigir às pessoas que se preparam para receber o Sacramento do Matrimônio (noivos/namorados), respondendo a pergunta de como deveriam se comportar antes de receber tal sacramento, encontramos, em parte da resposta, o seguinte: “evitar toda a familiaridade perigosa de trato e de palavras, ao conversarem mutuamente antes de receberem tal Sacramento” (CSPX 837). Conclui-se daí, portanto, que deve-se evitar a relação sexual, obviamente, e tudo quanto leva a esta. Esclarecendo mais ainda: evite o pecado e o que leva a pecar.

São Pio X fala algo que para nós, que somos da geração pós revolução sexual, parece ser um escândalo: os namorados e noivos devem evitar a familiaridade perigosa no trato e nas palavras. Como isso num mundo onde se está acostumado a usar e abusar? Nem todo namoro, por não ter havido fornicação (sexo antes do casamento), é santo. Será que o teu namoro, caro leitor, é santo?

Seguir o proposto acima parece ser loucura. Alguns podem rebater que isso é medieval, ultrapassado. Eu poderia argumentar que não, afinal, isso foi escrito há apenas 100 anos, mais ou menos. O problema é que foi escrito antes de algumas modernidades apresentadas nas tantas revoluções que a sociedade sofreu no séc. XX. Mas nós, católicos, devemos estar alerta. E se você se escandaliza com o que está no Catecismo de SPX, talvez se escandalize mais com o que o nosso atual Catecismo ensina aos noivos. Na minha opinião é mais radical e direto. O nosso Catecismo, promulgado por São João Paulo II, portanto, um documento pós conciliar, trais o seguinte ensinamento aos noivos (entenda também para os namorados. Normalmente se fala “noivos” e não “namorados”, pois fica mais formal. Mas no namoro deve estar a intenção de casar. Portanto, a regra pra um é a mesma para o outro):

Os noivos são convidados a viver a castidade na continência. Nessa provação eles verão uma descoberta do respeito mútuo, uma aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem ambos da parte de Deus. Reservarão para o tempo do casamento as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade.” (CIC 2350)
(Grifo meu)

Ora, a Igreja está dizendo – não o Anderson, mas a Igreja, coluna e sustentáculo da verdade (cf. 1Tm 3,15) – que os noivos (namorados) devem reservar para após o casamento, não só o “amor conjugal” mas as “manifestações de ternura específicas do amor conjugal”. O que isso quer dizer? Sexo só depois do casamento! Ok. E tudo que faz você querer sexo, também, só depois do casamento.

No livro Descobrindo a Castidade, o Padre Lodi vai ser direto: “Mas também são pecados todos os atos que causam o desejo da fornicação. Em outras palavras, os abraços, beijos, carícias que provocam excitação são todos pecaminosos. Só isso? Não. Jesus disse, para espanto da multidão, que até o olhar libidinoso já é pecado: 'ouvistes o que foi dito: não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, já cometeu adultério com ela em seu coração' (Mt 5,27-28)”.
Se apenas o olhar com desejo já é pecado, quanto mais os toques ardestes de paixão! Se olhar libidinosamente já se peca, e o se amassar nos cantos dos muros, atrás das árvores, nos locais solitários, ou, perdendo-se a vergonha, em público – até dentro das Igrejas.

Vale ressaltar que quando se fala em abraçar não se generaliza o abraço. Aqui fala-se do abraço que as pessoas ficam todas envaixadas, corpo a corpo. Os namorados podem dar abraços, desde que sejam castos, ou seja, desde que não causem excitação no outro.
Não se pode achar que se namora santamente só porque não aconteceu uma relação sexual. Há namoros que chego a pensar: e precisa ter relação? Piadas a parte – porque a salvação não é uma brincadeira -, precisamos ser sinceros: há namoros em que um passa a mão no outro. Abraça encaixando-se no outro, passa a mão daqui, aperta dali. Depois ofegante diz “chega, nós somos da Imaculada!” Não, isso é hipocrisia! Se eu você não quer uma explosão porque acendeu fogo na pólvora? Aí depois quer sair correndo para apagá-la antes da explosão? A dinamite explodirá caso acenda o pavio. Da mesma maneira que é um risco você dizer “eu sei a hora de apagar o pavio e evitar que exploda a dinamite” é um risco você dizer “eu (nós) sabemos a hora de parar”. Todos aqueles que tinha boa intenção, mas que depois caíram em na fornicação, também pensavam que podiam parar quando quisessem. Medite contigo mesmo, diante de Deus, e pergunte se o Seu namoro tem sido agradável a Deus. Não transou, é verdade, mas é um namoro santo com tantos amassos, apertos, excitações provocadas...?

Muitos acham um absurdo se falar de pecado em relação ao beijo de língua. Fiz um post aqui neste blog falando sobre isso (clique ali para ler), e é incrível como as pessoas – não todas, claro – se revoltam. Mas como eram os namoros antigamente? Talvez você venha me dizer que antigamente era outras história, algo medieval. Mas, não, meus queridos! Até meados dos anos 60 namorava-se, em suma, segundo a moral e os bons costumes. Não se dava agarrões. Vemos depoimentos de casais de idosos que relatam o namoro sem beijos (afinal, o namoro é um tempo para se conhecer a alma da pessoa, e não o corpo); outros dizem que deram o primeiro beijo depois de meses de namoro. Mas vale ressaltar que antigamente, um beijo não se tratava, em suma, de beijos ardentes como os que até desconhecidos se dão, devorando-se mutuamente à luz do dia, sem o menor pudor; mas se tratava, todavia, de algo mais parecido com um selinho, algo que não havia fogo de paixão, algo rápido, até, para evitar essa paixão. Foi o cinema e a televisão que, no século XX, fizeram a propaganda de tal ato como lícito para todos. Mais precisamente, com a revolução sexual dos anos 60, começou-se a propaganda para as moças dizendo que elas podiam beijar os rapazes, usar saias curtas, etc. Foi a partir do movimento do “libera geral” que o beijo ardente (de linguá) popularizou-se, saindo do âmbito conjugal, para os namorados. Depois vieram os ficantes, e agora todo mundo beija todo mundo nas imoralidades que cada vez mais crescem. Agora, pergunto-me, se algo que nasce justamente de um movimento tão infame, como foi a revolução sexual, como que os cristãos se revoltam? Sim, rejeitam a propaganda do “sexo livre”, mas a do beije seu(ua) namorado(a), não querem.

Por que o beijo de língua é ilícito e deve ser evitado com toda força no namoro? Porque ele tem uma função: é uma preparação para a relação sexual. Se estamos falando de pessoas sadias, todo beijo de língua causará excitação, afinal, o beijo avisa que haverá uma relação sexual e então ambos se preparam. É automático. Até porque, no próprio beijo já há penetração de um corpo no outro. Ou não? É altamente excitante e já gera prazer em si. Por isso os jovens que vão pras baladas por aí, apesar de, em alguns casos, não terem relação sexual, se gabam de terem pegado (dado beijos de língua) x pessoas. Ora, se não desse prazer sexual não se gabariam disso. Nunca vi ninguém se gabar de ter apertado a mão de moça ou rapaz, ou de ter dado um abraço casto na outra pessoa. Mas de dar beijos sim. Muitos adolescentes questionam uns aos outros: já beijou quantos? Ora, essa fissura que as pessoas têm em relação ao beijo de língua, somente revela que o mesmo é fonte de prazer. Mas, não um prazer de saborear uma comida ou bebida, por exemplo, mas um prazer sexual. E, a Palavra de Jesus diz, se olhar – apenas olhar – de maneira libidinosa, já adulterou. Então, que juízo fazer dos namorados que se amassam e se entregam aos beijos ardentes?

A comparação que me vem é a seguinte: minha mãe é revendedora de cosméticos. E algumas vezes as empresas dão (ou vendem) pequenas amostras de perfumes, batons, cremes, etc. Serve exatamente para mostrar para o cliente o cheiro e/ou qualidade do produto para o cliente, para que este possa adquiri-lo. O beijo na boca de língua funciona da mesma forma: já que não pode ter aquele perfume de 100ml, dá-me essa pequena amostra grátis; se não posso ter o seu corpo numa relação sexual, dá-me pelo menos um beijo apaixonado. E assim os jovens vão, em nome de não cometer o pecadão, cometendo um menor, que não ouso chamá-lo pecadinho. Não se tem a explosão do prazer de uma relação sexual, mas já tem uma amostra. Isso já seria ilícito e desordenado em si mesmo, em se tratando de namorados; mas torna-se mais ainda quando aumenta-se o vício e põe-se em risco de passar para a concretização da relação sexual. De tanto usar uma amostra grátis de um perfume, uma hora acabou adquirindo a versão completa. De tanto dar beijos e amassos uma hora a casa caiu. E, aliás, da mesma forma que o pequeno vidro da amostra grátis, derramado sobre a pessoa, já lhe dá o cheiro; o beijo ardente, dado de reta intenção, já também passará tal cheiro (o prazer) para os que praticam.

Alguns podem retrucar: mas eu sei até onde posso ir. Sei a hora de parar! Bom, aí volto ao exemplo citado acima, da dinamite, você não pode acender o pavio e achar que pode aapagar na hora exata de impedir a explosão. Você não vê placas nos postos de gasolina – como bem lembra o Padre Lodi – fume pouco, ou produza poucas faíscas, não! Está escrito para não produzir faísca nenhuma! Não fume! O risco de explosão é enorme. Portanto, não posso dizer: beije menos. Se você quer ter um namoro santo, que agrade a Deus, o que tenho a dizer é: evite o beijo de língua, exclua-o do vosso relacionamento. Vocês tem conhecido a alma um do outro? Parem de se amassar e verás que sobrará tempo para conhecer o coração um do outro. Vocês - me perdoem! -, já sabem até o gosto do outro, tamanhos beijos ardentes, mas sabem o que o outro gosta? O que o outro representa? Como é a alma do outro? Quais seus defeitos? Quais suas qualidades? O outro não pode ser alguém que eu dou uns beijos quando brigo com meus pais, alguém que me dá um prazer de um beijo e um abraço ardente quando a vida está chata e os professores da escola ou faculdade estão me moendo. Não! Pelo amor de Deus! Isso não é namoro. Os pagãos fazem o mesmo. Conversem mais, se amem mais (amor = sacrifício), busquem rezar juntos, busquem ser presença de Deus um para o outro. Não haja como um drogado em crise de abstinência querendo do outro o seu prazer.

Portanto, caro leitor, retomo o que a Igreja diz: devemos reservar para o tempo do casamento as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Sim, amados. Se tal ternura (beijo de língua) é um mecanismo do corpo para avisar que haverá uma relação sexual, ou seja, deve ser deixado para o tempo próprio, ou seja, para o tempo em que será lícito ter a relação sexual. Se tal beijo é uma manifestação ternura, que de fato é, só é lícito dá-lo no amor conjugal. Existem manifestações de carinho que são lícitas. E quais são? Todas aquelas que não gerarão desejo sexual, ou seja, não causarão excitação no outro. Um dar-se as mãos, abraçar castamente (sem ficar se encaixando, nem agarrando a moça por trás e forçando-a contra seu corpo), um abraço de lado, um beijo no rosto rapidamente, enfim... Se você acha bizarro um namoro assim... Ora, infelizmente já estás doente! Está preso numa cultura do prazer pelo prazer. O namoro não é pra dar prazer (sexual), mas para aprender a amar, conhecer o outro. Se a presença do outro por si não me dá prazer, mas preciso de um beijo para que o prazer seja algo sexualizado, então eu não amo a outra pessoa, posso até gostar, mas no mais apenas amo o prazer (mesmo que seja uma “amostra grátis”) que o outro pode me dar.

Para finaizar essa questão, pergunto-vos: se você acha que o beijo de língua é apenas uma forma de carinho, você, sinceramente, daria tal beijo no seu pai ou na sua mãe? Claro que não! Até te dá nojo ler isso. Correto? Por que, se é apenas uma manifestação de carinho? Ora, porque a sua consciência acusa dizendo que isso (beijo) só pode ser dado em uma pessoa em especial, e essa pessoa não pode ser um parente como o pai, mãe, irmãos. Esse ato te leva a desejar um algo a mais que só pode ser concretizado com alguém especial, no caso seu/sua esposo(a). Portanto, se formos sinceros conosco mesmos, pela nossa consciência, pela reação do beijo de língua em nós, sabemos perfeitamente que o mesmo não é uma simples manifestação de carinho.

No mais, caríssimos, evitem todos os outros carinhos que causem excitação. Evitem andar com roupas imodestas. Não só quando for estar com a(o) namorada(o), mas sempre. E no namoro ainda mais. “vamos namorar santamente, meu bem!” diz o rapaz com roupa coladinha, bombadinho, ou indo vê-la sem camisa; ou a jovem com um super decote e roupa curta. Se apenas lançares um olhar libidinoso... Enfim, evitem as músicas que conduzam para tais ardências em paixão pecaminosa e/ou a uma carência afetiva que leve a quase idolatrar a(o) namorada(o). Evitem namorar sozinhos, em locais escuros, etc. Busquem sempre ter uma terceira pessoa junto ou, por exemplo, namorem em lugares abertos. “Ah, mas sozinhos a gente fica mais a vontade” - é, mas o que vocês vão fazer juntos num lugar sozinho que ninguém pode ver? Heim, jovenzinhos? “Não deis lugar ao demônio.” (Efésios 4,27) Vão rezar, ótimo? Que todos vejam o belo exemplo de um casal de namorados católicos rezando o Terço juntos. Se vão rezar na casa um do outro, no quarto, por exemplo, até podem, mas desde que a porta esteja aberta (levando em consideração que há outras pessoas na casa, se não, nem isso). Por que isso? Porque os santos, como São Filipe Neri, sempre ensinaram que diante da tentação de impureza, vence aquele que foge. Não frequentem lugares licenciosos, que vão levar ambos a pecar. Cinema pode ser complicado: primeiro porque dependendo do filme... Segundo porque se ambos não assistirem decentemente, mas agarrando-se, logo vão arder em paixão, como é comum se ver nos cinemas. Nego está assistindo um filme de exorcismo e dois caras estão se engolindo no cinema, quando alguém grita no filme “este corpo não te pertence”, ambos se largam, atordoados, dizendo “foi mal, foi mal, mas a gente vai casar...”. Não, anta, era com o diabo (embora tal agarramento tenha sido incitado pelo diabo, provavelmente).

Se queres um namoro santo, meus irmãos e irmãs, não temais renunciar tudo aquilo que macula vosso namoro. Se o namoro não subsiste sem tais atos, falo o que São Francisco de Sales, no livro Filoteia, disse ao falar das más amizades e namoros (também maus): “Não há razão para fazer caso de um amor que é tão contrário ao amor de Deus.” Caríssimos, ou tu tens coragem de fazer do teu namoro algo favorável ao amor de Deus, ou não há razão de prosseguir nele. Por prazeres temporários, ensina São João da Cruz, sofrem-se tormentos eternos. O que se planta no namoro se colherá no matrimônio. Queres um casamento feliz e santo? Plante santidade no namoro. Se plantar apenas busca pelo prazer, no matrimônio colher-se-á as desilusões.

Os jovens que fazem gestos, carícias e dizem palavras em que não gostariam de ser surpreendidas por seus pais, mães, maridos, esposas ou confessores, mostram com isso que tratam de coisa alheia à honra e à consciência.” (São Francisco de Sales, Filoteia)

Ps: Muitos perguntam, no entanto, se o selinho seria então permitido. O que direi a seguir é minha opinião, posso estar errado. É uma opinião.
Acredito que não seria pelo fato de não haver penetração, como ocorre no beijo de língua. Porém, deve-se precaver para que seja rápido, para que não se torne em si numa ocasião para quererem passar para a modalidade beijo de língua. Esse selinho deve ser rápido, sem pressão, leve, por exemplo, numa despedida, ou no momento que se vem e não ficar dando bitocas como divertimento. Da mesma forma o beijo no rosto. Mas, claro, para formar um justo juízo sobre a licitude do “selinho”, a pessoa deve ver se aquilo causará excitação nela ou não. Se sim, deve-se evitar também.

Salve Maria Puríssima!

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