quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Quando os heróis brigam entre si...


Ainda não terminei a leitura do livro O Hobbit, escrito pelo grande Tolkien; mas há algumas coisas na história que me chamam a atenção e faz meu coração arder para meditá-las desde já.

Os anões, auxiliados pelo mago Gandalf, escolhem Bilbo Bolseiro para ajudá-los na missão de vencer o grande dragão. Bilbo, que era um Hobbit, não era um homem com grandes qualidades para as aventuras que estariam por vir. Era um ser acomodado, chego a dizer até vivendo na mediocridade, sem muitas emoções. Seria aqueles casos, como dizem por aí, racionalmente seria o último a escolher para ir lutar contra fortes inimigos. Uma pessoa aparentemente incapaz.

Talvez você se pergunte o porque estou fazendo uma introdução do enredo da história do Hobbit – e de fato tem que se perguntar mesmo! Tolkien, em sua genialidade, deixa claro que Bilbo não era a melhor pessoa (olhando do ponto de vista das grandes lutas a travar somado a falta de preparo de Bilbo); mas num diálogo entre um anão (Thorin) e Gandalf, fica evidente o do porquê Bilbo foi escolhido e não alguém mais “preparado”. Após o anão dizer um plano muito difícil de se passar pela montanha, Gandalf lhe diz:

Isso não adiantaria nada - disse o mago -, não sem um Guerreiro valente, até um Herói. Eu tentei achar um, mas os guerreiros estão ocupados lutando uns contra os outros em terras distantes, e por estes lados os heróis são raros ou simplesmente impossíveis de encontrar.”

Meus queridos leitores, esse trecho arde em meu coração, me traz confusão, embaraço, vergonha, pois é a triste realidade dos ditos cristãos. O Papa Bento XVI dizia que a Igreja existe para conter o avanço do inferno na terra. Ora, é uma grande missão a da Igreja, não? Precisa-se, portanto, de heróis, valentes guerreiros. Mas, tristemente, como diz Tolkien na história do Hobbit, os heróis estão ocupados lutando uns contra os outros.

Os heróis viram a Europa ser secularizada, mas nada fizeram porque se auto-gladiavam; vimos (vemos) a mesma Europa – quase todo ocidente, para falar a verdade – ser islamizado, mas nada fazemos. Por quê? Porque depositamos todas as nossas energias em lutar uns contra os outros. A nossa Comandante, a Soberana Rainha do Céu e da Terra, a Imaculada Virgem Maria, vem nos dar ordens expressas para lutarmos, não uns contra os outros, mas contra o inimigo, usando suas armas: Terço ou Rosário, Comunhão, Oração, jejum, penitência, Confissão... Mas, até isso servia apenas para lutarmos uns contra os outros. O amado Jesus, o Rei Soberano do Universo, da qual devemos adorar, e da qual nos dá a vitória em todas as batalhas se formos lutar sob o poder do Seu Santo Espírito, nos deu a espada da vitória: a Palavra de Deus. Disse-nos que pregássemos o Evangelho a toda criatura, batizasse-as e seriam salvas. Ou seja, guerrear contra o pecado, contra o demônio, contra o mundo, contra a ignorância. Fazer Cristo conhecido, amado e adorado em todo o mundo. Este é um trabalho de heróis, de guerreiros. Porém, os guerreiros lutavam – lutam ainda, bando de antas! - uns contra os outros. E até as armas para vencer o demônio e salvar almas, fazendo a Igreja avançar, é usada para se auto-gladiarem.

Todos nós, batizados, somos ungidos por Deus para sermos heróis! Sim, seus guerreiros nesse mundo. Salvar almas. Evangelizar. Rezar! Rezai! Mas sabe-se lá o porquê, o inimigo infernal faz com que o fim das nossas ações não sejam mais levar as pessoas para Deus, mas atacarmos uns aos outros. Assim, a Igreja que tem a missão de conter o avanço do inferno na terra, vê o inferno ameaçar até os seus. A Igreja não, aliás, sejamos honestos, os que se dizem ser seus filhos.

Não é essa a realidade de uma geração tomada pelo orgulho? Conhece a salvação e guarda-a para si. Ou mesmo uma geração que vive em plenitude a parábola dos talentos, onde por medo (aqui escrúpulo) do seu Senhor, enterra-o não fazendo frutificar, e ao devolver ao seu Senhor é repreendido. Recebemos os dons, mas vivemos na superficialidade de não querer avançar a montanha, vencer o dragão, mas, mesmo com o dom, queremos apenas murmurar por aí.

Não sei bem expressar o nome do sentimento que sinto ao ver os católicos lutando entre si. Talvez tristeza, raiva, revolta. As vezes um pensamento do tipo “que merda vocês estão fazendo!?”. Ah, como é angustiante ver muitas... Muitas... Muitas pessoas que são chamadas por Deus para serem guerreiras se entregando a mediocridade de apenas ficarem lutando contra seus irmãos de mesma fé.

É isso que sinto quando, por exemplo, vejo a insanidade de alguns grupos imbecilizados, criarem dois tipos de católicos (aliás, é isso que sabem fazer, apenas, dividir. E Jesus mesmo já disse que todo reino dividido contra si mesmo...). Quantas vezes chegam para mim e perguntam-me: você é católico tradicional ou carismático? A minha resposta é: eu sou Católico Apostólico Romano. Dói o coração ver que tem pessoas que passam a vida a ficar nas redes sociais batendo de frente umas com as outras. “Vocês são modernistas, hereges, protestantes, loucos, sentimentalistas” dizem um lado; o outro retruca “vocês são contra a Igreja, o Papa, quer falar o que? São velhos, ultrapassados...” E quem está com a verdade? A verdade é Jesus. E em 1Timóteo 3,15 vai dizer “A Igreja é coluna e sustentáculo da verdade”. Aí vamos a Igreja e... Opa, todos são católicos no tocante a sua espiritualidade, vocação, enfim. Em vez de gastarmos energia para evangelizar os jovens que estão se afundando no mundo das drogas, nos rocks satânicos, bêbados, na sexualidade desregrada, na prostituição; homens e mulheres no adultério, com lares sendo destruídos; pessoas perdendo a fé... Enfim, em vez de sair pelo mundo e anunciar a fé para os não crentes; os heróis (que tem a fé e o dom de transmití-la), ficam na internet querendo provar que a Missa de Paulo VI é inválida, que o CVII não presta, e que o Papa é isso ou aquilo. São, em suma, um bando de antas. Os carismáticos também são outro bando de antas. Eles tem a missão própria de ir evangelizar (mais Kerigma). E em vez de ir fazer isso ficam entrando nesses debates que não levam a lugar algum senão a inimizades. E até, por ignorância, chegam a condenar coisas da tradição, da liturgia, enfim, sem nem saber o que faz; enquanto deveria condenar a antice dos radtrad. Aí fica um com barreira com o outro. Sou carismático, vivo a minha fé católica, minha espiritualidade, e não preciso ficar dando satisfações pra seu zé-ninguém. Ficar nessas bobagens é cosia de quem não tem o que fazer. Os heróis devem anunciar o Evangelho para quem não crê. Mas o que os heróis têm feito? Tem discutido o que é melhor: Missa de Paulo VI ou de Pio V? Não seria interessante os heróis deixarem de birra e irem anunciar o Evangelho para aqueles que nunca foram a uma Missa? Ou mesmo que foram mas nem sabem do que se trata. Gente! Uma pessoa que mora perto daqui, cliente da minha mãe, foi a uma Missa na segunda feira. Até aí, normal. A pessoa que foi com ela veio comentar depois que ela estava perguntando o que era uma missa. Essa mulher, 20 anos de idade, não sabe o que é uma Missa. Mas, como saberá se os heróis não vão ensinar?

Ah se nós assumíssemos o nosso papel de heróis. O mundo seria católico! Com toda certeza! Seria! Citei o exemplo de carismáticos e pseudotradicionais (porque como disse um amigo: “Católico Tradicional” é pleonasmo. Não se pode ser católico e negar a Tradição, Magistério e a Sagrada Escritura) porque é algo corriqueiro na internet. Mas essa briga entre si vale para grupo contra grupo, movimento contra movimento, etc. Ah se os heróis fossem unidos, sob o manto de seu Senhor, como venceriam o mundo.

Por isso Bilbo foi escolhido. E é por isso que muitas vezes vemos Deus escolher para grandes missões homens e mulheres que, humanamente falando, são incapazes de fazer aquele trabalho. Homens e mulheres analfabetos ou semianalfabetos, que não sabem falar direito, sem classe, com um monte de problemas, com defeitos visíveis, ignorantes, mas com o poder do Espírito Santo. Talvez fosse um herói culto a desempenhar aquela missão, mas este preferiu brigar com outros heróis. Então Deus escolhe os fracos para confundir os fortes. Poderia citar nomes, por mais que meu interior peça, não os citarei, pois sei que você, leitor, saberá ver quantos Bilbo's você conhece que são capacitados heróis confundindo toda a lógica humana.

Uma vez um rad-trad da vida comentou, reclamando neste blog, que a RCC enchia os bancos da Igreja com gente sem qualidade. Mas não era pra isso mesmo que Jesus enviou os Apóstolos a pregar? Para que todos os sem qualidades, ou seja, os pecadores se convertessem? Depois adquirem a qualidade (virtude) e seguem. Mas, por outro lado, se demoram a adquirir essa qualidade desejada, não seria porque faltam-lhes heróis para transmiti-la? É, se esse herói gastasse energia tentando salvar essas pessoas em vez de criticar outros heróis... É, acho que entenderam o recado.

No mais, meus queridos, vemos um mundo secularizado, paganizado, onde vemos Cristo e Sua Igreja sendo achincalhada; possamos, portanto parar de lutarmos uns contra os outros, e assumir a vocação particular que Deus nos deu, colocando-nos a serviço do Reino de Deus. Assumamos a graça do Espírito Santo em nossas vidas. Assim cumpriremos o que Santa Catarina de Sena dizia: Jovens, se forem o que deveis ser, incendiareis o mundo. Ou ainda: se morro, morro de amor pela Igreja. Por um mundo com mais Catarinas de Sena, Teresas de Ávila, Franciscos de Assis, Joões Paulo II... Chega de novos Luteros dentro da Igreja! Precisamos de santos. Ficar brigando uns contra os outros não ajudará a Igreja (Roma falou causa encerrada – dizia Santo Agostinho. Obedeçamos a Igreja, não aos nossos achismos ou gostos pessoais. A briga aqui não é porque um “católico” diz ser comunista, sendo que a Igreja proíbe, aí não, ai deve-se denunciar o lobo; a briga é que um católico briga com o outro por ele ser católico: católico significa universal, portanto, aquilo faz parte da Igreja. Aí por conta da espiritualidade, da liturgia aprovada pela Igreja, pelo jeito da outra pessoa, ficam-se gladiando... Aff), o que ajudará a Igreja é a santidade. Fecha a boca e seja santo logo. “Só sendo santa serei útil a Igreja” (Santa Faustina)

Ps: nessa onda de heróis lutarem contra heróis, até o Padre Paulo Ricardo virou herege na mente dos recalcados rad-trad's, pelo fato dele pregar na Canção Nova. Normalmente os heróis malucos são assim: X está ruim, aí aparece alguém em X fazendo algo bom, aí o orgulho não deixa elogiar, X e o alguém não presta. Como diria Chesterton:  "O fanatismo consiste em um homem convencer-se de que outro deve estar errado em tudo, pelo fato de estar errado em alguma coisa." No nosso caso, a CN, a RCC, para os rad-trads, estam erradas em tudo (até quando leva o Padre Paulo), porque está errada em alguma coisa. E a lógica também vale pro contrário. Há quem se afaste dos ares da tradição, porque pseudo tradicionais estão errados em alguma coisa. Enfim, não sejamos heróis fanáticos; sejamos santos. Sejamos católicos! Ah! se nós tivermos a unidade na santidade!!!


Salve Maria Imaculada, Mãe da Igreja!

3 comentários:

  1. Seria necessário chamar as pessoas de anta?Pe.Léo usava mto esta expressão....é pejorativo...NSra.chama seus filhos de:meus filhinhos....qta diferença....

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  2. Paz de Cristo irmão, quero te parabenizar por esse belo texto. Confesso que quando encontrei o seu texto tinha acabado de me deparar com um outro blog católico que criticava com unhas e dentes a RCC. Isso me entristeceu, pois sou do movimento e amo minha Igreja. Mas fiquei muito triste não por estarem criticando o movimento e sim por estarem fazendo justamente isso que vc falou, lutando entre si, ao invés de anunciar.
    Seu texto foi um consolo e de grande valia para mim. Que Maria Santíssima interceda por sua missão, continue firme.

    Paz e Bem.

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