sábado, 17 de janeiro de 2015

Bento x Francisco - Serão eles tão diferentes assim?

Por John L. Allen Jr.
Durante uma breve conferência de imprensa a bordo do avião papal, ontem, retornando a Roma após um dia de viagem a Estrasburgo, um jornalista francês perguntou ao Papa Francisco se ele era um social-democrata. A pergunta foi feita por causa de um de seus discursos em Estrasburgo, no qual, em um pequeno trecho, o papa “cutucava” as empresas multinacionais.
Caso você não entenda de política europeia, os social-democratas são o principal partido de centro-esquerda. É quase como se um norte-americano perguntasse ao Papa se ele é simpatizante do Partido Democrata.
Francisco riu muito, e então disse: “Caro, questo è un riduzionismo!”
A tradução do italiano é a seguinte: “Meu amigo, isso é uma simplificação excessiva!”Francisco passou a falar sobre como ele tenta seguir o Evangelho e a doutrina social da Igreja, e não uma linha partidária qualquer, e terminou por agradecer ao repórter, Renaud Bernard, da France 2 TV, por fazê-lo rir tanto.
O que a pergunta ilustra, assim como a resposta do Papa, é que a breve visita de Francisco, na terça-feira, ao Parlamento Europeu e ao Conselho da Europa, oferece um quadro clássico de como as narrativas da mídia moldam a maneira como percebemos as figuras públicas.
Na verdade, a ideia de ver Francisco como um social-democrata em Estrasburgo, portanto um repúdio à guinada à direita percebida na Igreja Católica sob o Papa Bento XVI, está baseada inteiramente em se ouvir apenas uma parte do que Francisco tinha a dizer.
Papa discursando no Parlamento Europeu em Estrasburgo
A viagem de ontem não foi apenas a mais curta viagem ao exterior na história do papado, menos de quatro horas, mas também estabeleceu um novo recorde na relação entre palavras ditas e tempo. Seu discurso ao Parlamento alcançou 3.500 palavras e o do Conselho chegou a 3.100, o que significa que Francisco pronunciou 28 palavras em cada minuto que passou na visita às instituições políticas mais importantes da Europa.
(Os cínicos podem dizer que, já que a única coisa que os parlamentares europeus sabem fazer é discursar, o palavrório do Papa pode ter sido totalmente adequado, mas isso já é outra história.)
Ambos os discursos foram densos, e ambos abrangeram uma vasta gama de questões. Em muitos aspectos, eles foram os mais próximos que Francisco chegou ao estilo de retórica associada ao Papa Bento XVI, começando com princípios elevados e abstratos e, em seguida, descendo até conclusões específicas.
A comparação é ainda mais apropriada em relação ao conteúdo, porque teria sido fácil imaginar ambos os discursos sendo proferidos por Bento. Além do uso de certos motes associados ao antecessor, como “ditadura do relativismo”, considere os seguintes pontos levantados por Francisco em Estrasburgo:
  1. Para se manter saudável, a Europa tem necessidade de Deus: “A Europa, que deixou de ser aberta à dimensão transcendente da vida, é uma Europa que corre o risco de perder sua alma lentamente…”
  2. O aborto é um exemplo de como a cultura ocidental trata os seres humanos como “meras peças de uma engrenagem”. Como exemplos, Francisco citou “os doentes terminais, os idosos que são abandonados sem cuidados, e as crianças que são mortas no útero”.
  3. A Europa precisa parar de negar sua identidade cristã: “Uma história de dois mil anos une a Europa e o Cristianismo…. Uma Europa, que é capaz de apreciar suas raízes religiosas estará mais imune às muitas formas de extremismo espalhadas pelo mundo de hoje, resultado do grande vazio de ideais que testemunhamos atualmente no Ocidente”.
  4. A Europa secular está perdendo o fôlego. Francisco disse que o mundo de hoje está “cada vez menos eurocêntrico”, que a Europa “dá a impressão de estar ficando velha e abatida”, e que é “cada vez menos protagonista”. Em parte, o Papa credita esse declínio à aversão à reprodução, dizendo que a Europa é “agora uma ‘avó’, não mais fértil e vibrante”.
Se tivesse sido Bento XVI em Estrasburgo a dizer essas coisas, pode-se imaginar que a manchete teria sido: “Papa repreende a Europa devido à falta de valores”.
Ao invés disso, como foi Francisco, que carrega a aura de uma narrativa de independência e progressismo, esses elementos de seus discursos foram amplamente ignorados em favor daqueles sobre os imigrantes, o trabalho, o meio ambiente, o comércio de armas e o tráfico de seres humanos. As manchetes foram: “Francisco exige que a Europa cuide dos pobres”.
Papa Francisco: muitos rótulos
Provavelmente, o trecho mais citado do discurso de Francisco, em Estrasburgo, foi quando ele falou sobre as ondas de migrantes pobres que tentam atravessar o Mar Mediterrâneo para a Europa, e que arriscam suas vidas ao fazê-lo, dizendo:“Não podemos permitir que o Mediterrâneo se torne um vasto cemitério!”
Bento XVI disse coisas semelhantes, mas a diferença é que os meios de comunicação hoje acreditam que Francisco simboliza isso, de modo que tais declarações desempenham um grande papel.
Na verdade, Bento teve uma agenda social muito parecida com a de Francisco.
O tio-avô de Bento XVI por parte de pai, Georg Ratzinger, foi uma das figuras mais proeminentes da Bavária no século 19, um monsenhor católico com forte histórico de engajamento em favor dos pobres. Ele foi eleito duas vezes para a legislatura bávara e federal, e ajudou a fundar um partido político, o Bauerbund, que representava os interesses dos agricultores pobres contra grandes indústrias capitalistas. Seu objetivo principal era um sistema de seguridade social que protegesse os agricultores pobres e pequenos comerciantes dos ciclos de “altos e baixos” na economia.
Como resultado, Bento manifestou sempre um profundo ceticismo sobre o capitalismo de livre mercado. Quando viajou para o Brasil em 2007, ele definiu o comunismo e o capitalismo como “ideologias fracassadas”, o tipo de linguagem que Francisco invoca rotineiramente.
Não significa que não existam diferenças entre a era João Paulo II / Bento XVI do catolicismo e os novos ventos que sopram sob o Papa Francisco. Hoje, os teólogos moderados no rebanho católico se sentem encorajados, enquanto os conservadores e tradicionalistas estão na defensiva.
Mesmo assim, o contraste entre Francisco e Bento é real apenas em parte, uma vez que é tudo questão de percepção. Nunca isso ficou tão claro quanto nessa viagem de Francisco a Estrasburgo, quando ele fez dois pronunciamentos, os quais estranhamente relembravam seu predecessor, e ainda teve que enfrentar perguntas sobre se ele era de esquerda.
Se tivesse sido Bento a viajar para o coração da Europa secular e a dizer exatamente as mesmas coisas, a pergunta do repórter no avião provavelmente teria sido:“Santo Padre, você é de extrema direita?” A diferença tem pouco a ver com o que Francisco realmente disse, mas tudo a ver com a forma como a narrativa sobre ele tem sido percebida.
(Texto publicado em 26/11/2014 na revista Crux.)

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