domingo, 23 de novembro de 2014

O silêncio que faltou a São Pedro

Estando Pedro embaixo, no pátio, veio uma das criadas do sumo sacerdote. Ela fixou os olhos em Pedro, que se aquecia, e disse: ‘Também tu estavas com Jesus de Nazaré’. Ele negou: 'Não sei, nem compreendo o que dizes'. E saiu para a entrada do pátio; e o galo cantou. A criada,que o vira, começou a dizer aos circunstantes: 'Este faz parte do grupo deles'. Mas Pedro negou outra vez. Puco depois, os que ali estavam diziam de novo a Pedro: 'Certamente tu és daqueles, pois és galileu'. Então, ele começou a praguejar e a jurar: 'Não conheço esse homem de quem falais'. E imediatamente cantou o galo pela segunda vez. Pedro lembrou-se da palavra que Jesus lhe havia dito: 'Antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás'. E, lembrando-se disso, rompeu em soluços.” (Marcos 14,66-72)
Salve Maria Imaculada, nossa Co-Redentora e Mãe!

Nessa passagem da negação de Pedro podemos meditar algo a mais do que simplesmente o ato de negar a Jesus. Podemos e devemos meditar o porquê de Pedro ter negado o seu Senhor. Pedro havia dito na ceia que nunca se escandalizaria de Cristo (cf. Marcos 14,29) . O que aconteceu para este que de juras de amor, de dar a vida por Cristo, agora está negando, não diante de Pilatos, mas diante dos mais simples, dos servos...? Não acho que ele não amasse o Senhor; podemos ver que ele amava sim ao lermos o relato da reconciliação após a ressurreição de Cristo (João 21,15-23). O que consigo contemplar ao ler a narrativa da negação de Pedro, é que, como dizem popularmente, ele perdeu a oportunidade de permanecer calado. Pedro falou quando deveria calar; por isso nós muitas vezes, à exemplo de Pedro, mesmo amando o Senhor, acabamos blasfemando, pecando, traindo o Senhor em diversas situações porque nós não sabemos nos calar. Precisamos ter o santo silêncio.

As pessoas estavam acusando Pedro de seguir Jesus. E isso era verdade. Ele seguia Jesus, era o líder dos Apóstolos. Mas acabou se escandalizando. Não com Cristo, mas com a Cruz. Ele estava vendo se cumprir as profecias de Jesus que dizia que padeceria, morreria... E acabou se cumprindo a profecia que ele (Pedro) trairia Jesus. Pedro negou Jesus porque queria negar a Cruz, Pedro se escandalizou do sofrimento que tomaria Jesus. E diante da cruz, o ser humano não deve falar, mas imitando a Virgem deve permanecer silenciosamente. Devemos adorar o Cristo crucificado, mas não tagarelar, onde acabamos traindo o Senhor.

Nós vemos a importância do silêncio quando nós nos adiantamos na passagem de Marcos que foi citada. Leiamos a seguir a narração evangélica da prisão de Jesus diante de Pilatos:

E tendo amarrado Jesus, levaram-no e entregaram-no a Pilatos. Este lhe perguntou: 'És tu o rei dos judeus?'. Ele lhe respondeu: 'Sim'. Os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas. Pilatos perguntou-lhe outra vez: 'Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam”' Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos ficou admirado.” (Marcos 15,1-5)

Aqui está a chave da questão, a sabedoria do silêncio de Cristo deixa Pilatos admirado; a insensatez da loucura da tagarelice de Pedro fez ele trair o Amado Jesus. Jesus respondeu a pergunta sincera de Pilatos de maneira simples e direta. “És tu o rei dos judeus?” “Sim” - disse Jesus. Ora, isso nos lembra o que o próprio Jesus que disse: “Dizei somente: 'Sim', se é sim; 'não', se é não. Tudo o que passa além disso vem do maligno” (Mateus 5,37). Jesus poderia ter acrescentado muita coisa, mas disse sim, pois a resposta para a pergunta era sim. Pedro além de negar, acrescentou... Acrescentou juramentos em falso, pragas... Se Pedro tivesse silenciado o coração e contemplado o mistério. Por isso Jesus ensinou para Santa Faustina um ensinamento que julgo ser um dos mais difíceis de seguir: não reclamar os seus direitos, não se defender, deixar que as pessoas a julguem como quiser que se Ele quiser que ela seja defendida Ele mesmo a defenderia. Traduzindo: permaneça sempre em silêncio. E de fato, quando queremos nos defender, justificar, dar uma explicação quando esta é desnecessária, acabamos blasfemando, nos irando, jogando pragas, e matando o irmão dentro de nós. Fora que quando envolve pessoas da Igreja, muitos acabam praguejando Sacerdotes e até o Papa. Como Pedro, se tivéssemos ficado calados...

Tanto é reala necessidade de se calar ante as acusações, que podemos ver que diante do sofrimento, da humilhação, da cruz já próxima, Jesus respondeu a pergunta sincera de Pilatos, porém, podemos ver que quando os judeus o acusavam Cristo se calou. Tanto que Pilatos pergunta se Ele não iria responder tantas acusações. E este silêncio admirou Pilatos. Nós temos feito o mundo nos admirar, ou estamos escandalizando o mundo com a nossa murmuração e praguejamentos?

Para dar exemplos vejamos algo corriqueiro: você está conversando e acaba citando o nome de uma pessoa, sem maldade, só quer saber notícias; porém, você sabe que sempre que cita o nome dessa pessoa os outros começam a fofocar sobre. O que você faz? Cita, e começa a fofoca. Você sabe que determinada pessoa é estourada por causa de política, futebol ou algo, e o que você faz? Fala algo sem discernimento e sem necessidade... Aí BUM! Explode a bomba da murmuração. Alguém te critica, fala algo, você o que faz? Dá a outra face? A Face do silêncio... Não. O orgulho tem nos tomado e logo nos defendemos, porque nós não podemos ficar sendo mal falado. Não é assim que pensamos? Enquanto deveríamos nos calar. Aí nós nos defendemos, a pessoa fala mais, e acabamos dentro de uma discussão feia. Fulano é ignorante, nem te conhece e fica falando mal de você? Mas você e eu não deveríamos ter ficado calados? Ora, se no primeiro ataca, no primeiro “agora só usa saia”, “vai ser padre”, “agora não sai dentro da Igreja”, e os famosos dizeres dos mundanos – inclusive os mundanos dentro da Igreja -, se tivessemos ficado calados e entendêssemos que as nossas palavras não as converterão, mas sim a nossa oração com o nosso exemplo, não teria tido um “pega” e com trocas de ofensas. Quando falamos, devemos falar com discernimento. Assim como Cristo diante de Pilatos falando da verdade. Deixou Ele sem argumento. Se nós fizermos verdadeiro silêncio orante, teremos discernimento pra saber quando como falar. Estaremos sempre sob inspiração do Espírito Santo.

Quer ser fiel a Cristo? Possamos ter vida de oração diária, nos consagremos e imitemos Nossa Senhora, a Virgem do silêncio, para entendermos que diante da Cruz devemos nos calar, e não falar, para que não venhamos a trair o Senhor.

Que possamos aprender o silêncio que vivia e ensinava Santa Faustina: “Ora, o Espírito Santo não fala à alma distraída e tagarela, mas fala por suas suaves inspirações à alma recolhida, à alma silenciosa. Se o silêncio fosse observado estritamente, não haveria murmurações, mágoas, maledicências, mexericos, não seria prejudicado o amor ao próximo. Numa palavra, muitos erros seriam evitados. Os lábios selados são como ouro fino e testemunham a santidade interior.”

Sigamos o ensinamento do Senhor na Sua Palavra: “quem odeia a tagarelice destrói sua malícia” (Eclesiástico 19,5) Que possamos destruir a nossa malícia e saber acabar com a maldita fofoca, que o próprio Papa Francisco tem citado. A Palavra ainda diz: “Ouviste uma palavra contra o teu próximo? Abafa-a dentro de ti; fica seguro de que ela não te fará morrer. Por causa de uma palavra (irrefletida) o tolo estorce-se de dores, como uma mulher que geme ara dar à luz. Como uma flecha cravada na gordura da coxa, assim é uma palavra no coração do insensato.” (Eclesiástico 19,10-12)

Santa Faustina ainda fala que “Calar-se quando se deve falar é uma imperfeição e, algumas vezes, até pecado”. Ela quer dizer que devemos saber quando falar. Ora, se eu vou pregar, e eu sei que algo é pecado, não posso me calar e denunciar o pecado. Se uma pessoa vem pedir conselho sobre uma situação pecaminosa, e eu tenho a opornudade de exortar essa pessoa, não posso me calar. Por isso que no dia a dia eu devo saber calar-me, ouvir a voz de Deus, não me intupir ouvindo coisas mundanas, para ter discernimento quando Deus me pedir que fale. “Há quem se cale por não saber falar, e há quem se cale porque reconhece quando é tempo (de falar). O sábio permanece calado até o momento (oportuno), mas o leviano e imprudente não espera a ocasião. Aquele que se expande em palavras, prejudica-se a si mesmo; quem se permite todo o desregramento torna-se odioso” (Eclesiástico 20,6-8)

Que Nossa Senhora, a Virgem do silêncio nos dê essa graça de termos o santo silêncio para sermos fiéis ao Senhor Jesus Cristo até o fim, ou melhor, até os séculos dos séculos. Amém.

Salve Maria Imaculada, nossa Co-Redentora e Mãe! Viva Cristo Rei do Universo!

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