terça-feira, 9 de setembro de 2014

A importância do silêncio para ter discernimento

Salve Maria Imaculada, Esposa do Espírito Santo! Viva Cristo Rei!

Se há algo que tem destruído a espiritualidade do homem do século XXI é a tagarelice; em outras palavras, a falta de silêncio, tanto exterior, mas principalmente interior. Em suma homem moderno não sabe imitar Nossa Senhora que guardava todas as coisas em Seu coração (cf. Lucas 2,19). Nós assim vivemos assim porque cada vez mais aumenta-se a poluição sonora; nunca antes na história da humanidade se produziu tanto barulho destruidor como nestes tempos. Se você mora numa região bem interiorana, talvez (na verdade, bem TALVEZ mesmo) você ainda usufrua de um silêncio moderado; porque já nas áreas urbanas, nos grandes centros, tudo nos leva a fugir do silêncio: buzinas, motores, carros de som, gritos, música alta (e nos mais variados rítmos, tudo dispersando o silêncio, como por exemplo: Rock, Funk, Rap, Eletrônica, etc.), televisão, rádio, conversas... E assim cada vez mais o silêncio é pouco “ouvido”.

Talvez você se pergunte o que tem a ver isso com o discernimento e com o “escutar a Deus”. Bom, a própria espiritualidade moderna tem vivido muito em cima de barulho. E se nós não aprendermos na escola da Virgem Maria (Nossa Senhora do Silêncio) a nos calarmos, mas não qualquer calar, mas um calar em Deus, nossa espiritualidade vai por água abaixo. No louvor Deus habita, mas é no silêncio que escutamos a Sua voz. E se ficarmos de gritaria em gritaria se silenciar (que é diferente de fechar a boca, pois muitos quase não abrem a boca, mas interiormente vivem “no mundo da lua” pensando em mil coisas “abafando” a voz de Deus).

Para entendermos a importância do silêncio, lembremos do que a Palavra de Deus nos ensina. O profeta Elias foi para o monte Horeb orar, dizendo que estava devorado de zelo pelo Senhor. O povo tinha abandonado o Senhor, passaram a fio de espada os profetas, e queriam matar também a Elias. O Senhor lhe falou. E é na resposta do Senhor, juntamente com o que ocorre em seguida, que quero que meditemos profundamente: “[...]'Sai e conserva-te em cima do monte, na presença do Senhor! Ele vai passar'. Nesse momento, passou diante do Senhor um furacão, tão violento que fendia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu, mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o mento, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Uma voz disse-lhe: 'Que fazes aqui, Elias?'[...]” (1Reis 19,11-13) – Vejam só, passando à frente do Senhor furacão, terremoto, fogo, mas o Senhor não estava em nenhuma dessas coisas. E onde estava a presença do Senhor? Na brisa ligeira, na brisa suave, ou seja, no santo silêncio. Muitos hoje confundem, por exemplo, unção num grupo de oração ou ministério de música com quem mais faz barulho. “Fogo! Fogo do Espírito...” Mas sem silêncio, há somente um clamor, mas sem resposta do Espírito Santo. Por quê? Ele não responde as orações? Responder, bom, responder Ele responde, o problema é que quando inexiste o silêncio, principalmente interiormente, fica difícil saber o que o Espírito Santo está falando. E é por isso que em vários lugares, pessoas falam coisas popularmente conhecidas como “da carne” (isso tanto em pregações, como em proclamações durante oração). Mas como uma pessoa que não faz silêncio interior, não reza, passa o dia ouvindo coisas do mundo, vai rezar e/ou pregar? Aí fica difícil. É um grupo e/ou pessoas carnais mesmo.

Já vai nos ensinar São Paulo Deus não é Deus de confusão, mas de paz.”(1Coríntios 14,33) e também “Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia.”(Efésios 4,31). Mas infelizmente temos vivido no tempo da gritaria, da distração, enfim. Pouco se tem ouvido o Espírito. Para quem é de grupo de oração, por exemplo, deve viver o santo silêncio em toda a sua vida, e, principalmente ao servir no grupo de oração ao querer proclamar alguma coisa como vinda de Deus. Como que você sabe que aquilo vem de Deus? É no silêncio que saberás... Você não pode sair proclamando tudo que vem ao seu coração. Você precisa silenciar para discernir se isso vem de Deus, do demônio ou da sua carne humana mesmo. Isso vale para todos os casos. Veja bem, se você quer saber se determinada coisa é da vontade de Deus ou não, se está discernindo namorar com certa pessoa, se está querendo entrar na universidade e fazer tal e tal curso, como saberemos a vontade de Deus? (principalmente questão vocacional, como saber se Deus me chama ao sacerdócio, vida religiosa, matrimônio, enfim, como?) A resposta está em orar e silenciar, mergulhando em Deus para escutá-lo; pois na calmaria escutaremos Sua voz. E quando digo “escutaremos Sua voz” não quer dizer que o Céu se abrirá e eis que uma voz grossa e onipotente se comunicará com você; isso será muito pouco provável, mas como lemos na passagem do 1Reis, Deus se manifesta na brisa suave. No nosso silêncio conseguiremos compreender os sussurros do Espírito Santo, pra onde Ele está a nos guiar. E isso não é um dom dado a uns apenas, mas dado a todos. Não é nada de extraordinário, trata-se do dom de Conselho do Espírito. Ele que vem nos aconselhar. Então o Espírito com o dom de Conselho, Sabedoria, Inteligência, vem nos mostrar sua vontade. O problema não é ausência de dons, já que são dons ordinários, o problema é que não fazemos silêncio.

O problema da nossa tagarelice é tamanha que levou Santa Faustina falar por diversas vezes a respeito da importância do silêncio para a vida interior. Ela chegou a escrever palavras duríssimas a respeito da falta de silêncio. De fato, nós fazemos um “uso desordenado da língua”. Por isso medite nessas palavras da grande Santa Faustina:

A língua é um membro pequeno, mas realiza grandes coisas. A religiosa que não sabe calar-se nunca atingirá a santidade, ou seja, jamais será santa. Que não se iluda – a não ser que através dela esteja falando o Espírito de Deus, é preciso ter o silêncio da alma e calar-se, não com um silêncio sombrio, mas com o silêncio na alma, isto é, com o recolhimento em Deus. Pode-se falar muito e não interromper o silêncio, e ao contrário pode-se falar pouco e sempre romper o silêncio. Oh! Que dano irreparável implica a inobservância do silêncio! Faz-se um grande mal ao próximo, porém ainda maior à própria alma.

Do meu ponto de vista e experiência, a regra do silêncio deveria estar em primeiro lugar. Deus não se comunica à alma tagarela que, como o zangão na colmeia, zumbe muito, mas não fabrica mel. A alma tagarela é vazia interiormente. Não há nela nem virtudes sólidas, nem familiaridade com Deus. Não há nela condições para levar uma vida mais profunda, para a doce paz e silêncio, em que reside Deus. A alma que não saboreou a doçura do silêncio interior é um espírito inquieto e pertuba o silêncio dos outros. Vi muitas almas nos abismos do inferno, por não terem observado o silêncio. Elas mesmas me disseram isso, quando lhes perguntei qual tinha sido a causa da sua perdição. Eram almas de religiosas. Meu Deus, que grande dor, pois, afinal, poderiam não apena estar no Céu, mas mesmo ser santas!

Ó Jesus, misericórdia! Até tremo quando penso que devo prestar contas da minha língua! Nela está a vida, mas também a morte; muitas vezes, matamos com a língua, cometemos verdadeiros homicídios, e ainda consideramos isso como coisa pequena? Realmente, não compreendo consciências desse gênero. Conheci uma pessoa que, tendo sabido de certa coisa que dela se falava... adoeceu gravemente, e resultou disso que perdeu muito sangue e derramou muitas lágrimas. E este triste resultado não foi causado por uma espada, mas apenas pela língua. Ó meu Jesus silencioso, tende misericórdia de nós!” (Diário de Santa Faustina 118-119) [destaque nosso]

Forte, não? Apesar de eu achar que as palavras de Santa Faustina são bem claras e diretas, gostaria de falar algumas coisas sobre seus apontamentos.

Veja bem, só só atingiremos a santidade se fizermos silêncio. Afinal, só silenciando ouviremos a voz de Deus, e conseguiremos fazer a distinção do que é bom e do que é ruim. Se a desobediência dos nosso primeiros pais, tentados pela serpente, ao comerem o fruto do bem e do mal desordenaram todo gênero humano; nós ordenamos a nossa vida, aprendendo a distinguir o bem do mal, não mais desobedecendo a Deus, mas para obedecer os 10 mandamentos e Sua lei, com o “fruto” do silêncio. Só no silêncio conseguimos ter um verdadeiro discernimento dos espíritos.

Santa Faustina deixa muito claro que não basta apenas silenciar exteriormente, mas tem que ser um silêncio em Deus. Não basta por exemplo, sair das grandes cidades, ir pra um retiro no meio do mato, se lá eu não silêncio em Deus e me atolo em barulhos interiores. Ela mesma diz “Pode-se falar muito e não interromper o silêncio, e ao contrário pode-se falar pouco e sempre romper o silêncio”. Como isso? Bom, veja bem: uma pessoa pode ser, por exemplo, um professor em três turnos, ou seja, passar o dia falando, mas este ouvirá a voz de Deus se dentro dele ele manter a serenidade de uma vida unida a Deus, se tirar tempo pra oração e pra escuta da voz de Deus. Isso foi um exemplo. É o caso de pregadores, que falam, falam, mas não quer dizer que não estejam fazendo silêncio. Um bom pregador deve estar silencioso antes, durante e depois da pregação. Antes para compreender o que o Senhor quer que ele pregue; durante para discernir as moções do Espírito, sendo assim sabendo o que vem de Deus e o que são tentações para apenas distraí-lo; e depois para colher os frutos e manter-se unido a Deus. Como que eu vou pregar se antes eu estava pensando na morte da bezerra? Ou como pregarei se antes da pregação estava ouvindo música do mundo? Como pregarei se ao pregar estou pensando em namoro, jogo de futebol... Veja, pode até não falar nada disso, mas pensando... Está assim abafando a voz de Deus.

E é bem por isso que hoje existe uma grande falta de discernimento na vida de todos os católicos. Se Santa Faustina diz que pode-se falar pouco e sempre romper o silêncio, isso vale e muito para os nossos dias. Eu posso passar um dia inteiro sem abrir a boca para pronunciar uma palavra sequer; porém rompendo o silêncio. Como pode isso? Ora, veja bem. Hoje muitos acham que vivem em silêncio, mas interiormente somos barulhentos, frios, sem experiência com Deus, sem virtude. Achamos que estamos vivendo a virtude do silêncio, mas passamos o dia todo no Facebook, por exemplo. Não abrimos a boca para pronunciar nada, mas passamos o dia todo lendo besteira no Facebook, Twitter “Zap-Zap”, etc. O demônio é tão astuto, que além de nos distrair prendendo-nos na frente de um computador, quando dizemos “chega! Quero viver!” o que fazemos? A mesma coisa, só que no celular. Ficamos horas e horas no computador, e quando saímos de casa, saímos conectados nas redes sociais pelos aparelhos celulares que levamos para todo lugar, até mesmo pra Igreja. E o silêncio? E depois queremos ouvir a voz de Deus. E pior ainda: depois dizemos que os desejos da nossa carne são voz de Deus. Faça-me o favor! Silenci-se em Deus.

Com isso, como diz Faustina, ficamos com espírito inquieto, pertubado, e chamamos isso de “aridez espiritual”, afinal, os santos sofreram aridez; entretanto, deveria ser chamado de tibieza e safadeza, porque estamos trocando a vida íntima com Deus pelo barulho e conversações desnecessárias com criaturas. “Aí, minha alma está árida”. Não, não é sua alma que está árida, é sua conta no Facebook que está muito acessada e o Santíssimo pouco visitado. E pouco visitado no silêncio. Hoje em dia vamos pra adoração e o que fazemos? Tiramos foto pra postar em tempo real. “Estou aqui adorando o Senhor, vem você também” - deve postar alguns. Adorando e acessando rede social? Legal heim guerreiro, sua mente e espírito bilocam não é mesmo?

E falo isso porque vejo minhas próprias misérias. Tenho persebido que depois de passar longo tempo no Facebook, saio, desligo o computador... pego o celular e entro no Facebook pra ver se alguém mandou alguma mensagem durante os longos 2 minutos entre sair e desligar o PC. Ora, aí quero ouvir a Deus e ser santo, heim? Vocês devem ter persebido que ando escrevendo pouco. Tenho que admitir que não é por falta de inspiração, é por falta de surra mesmo. Muitas vezes O Espírito Santo me inspira um tema para escrever. Antigamente quando vinha a inspiração já pirava, fazia uma oração, escrevia, postava, amém. Hoje? “pera, deixa eu compartilhar tal coisa no face, ver tal comentário no Youtube, responder fulano e fulana no bate papo... Olha só! Twitter...” e quando penso que não: “o que eu ia escrever mesmo?” As vezes lembro o tema, mas não lembro o corpo do texto que já vinha no coração. Entendem? Abafei a voz de Deus. Outras vezes digo que vou fazer video no lugar de escrever. E com os meus barulhos interiores, nem video nem texto, só tibieza e sem vergonhice da minha parte. Eu sou um poço de miséria e negligência. E como devo tremer e me converter ao ler esta frase de Santa Faustina: Ó JESUS, MISERICÓRDIA! ATÉ TREMO QUANDO PENSO QUE DEVO PRESTAR CONTAS DA MINHA LÍNGUA! - Como é terrível, meus queridos irmãos, saber que minha língua e meu intelecto deveriam estar focados na glória de Deus, mas passo o tempo a tagarelar em redes sociais, com outras pessoas ou comigo mesmo. E ao pensar: e se eu morresse agora? Meu Deus, Misericórdia! Olha tanta coisa, tanto em relação a video, textos pro blog, e até livros que o Senhor me inspirou e fui deixando pra depois, e estou até agora sem publicar. E tudo porquê? Sem silêncio, perdendo tempo com tudo, menos com o Tudo que é Jesus Cristo.

No mais, meus queridos irmãos e irmãs, se esforcem para viver este santo silêncio em Deus. Se quer saber se seu namoro é da vontade de Deus, se deves entrar na universidade e qual curso fazer. Ou se és de grupo de oração ou em um terço ou adoração vem algo em seu coração, mas teme proclamar por não saber se vem de Deus, lembre-se dessa frase de Santa Faustina: DEUS NÃO SE COMUNICA À ALMA TAGARELA. Você tem sido tagarela? Exemplo: acorda e não reza, vai pra internet, conversa com monte de gente, ouve músicas mundanas. Por exemplo, como já fiquei sabendo de caso de jovem que foi pregar em um retiro mas antes da pregação estava ouvindo música sertaneja. E além disso só conversa, chega na Igreja não vai pro Santíssimo, ou se vai é rápido, e logo se põe a converar. A pessoa chama para começar a pregação, e ele estava conversando. Meu irmão, minha irmã, se você e eu estamos nos preparando pra pregar, rezar, interceder assim, sinto muito, mas só vamos pregar e/ou proclamar coisa da nossa conversa, coisa da nossa carne. Deus fala! Deus é um Deus vivo que se comunica com Seus filhos. Por favor, pare de se comunicar com o barulho mundano, para ouvir a doce voz do Espírito na brisa leve para assim proclamar as coisas do coração de Cristo.

E ao escrever este texto me veio ao coração outro caso de “barulho interior” que o demônio pode facilmente camuflar como virtude. A pessoa não sobra o joelho pra rezar antes dos estudos. Por exemplo, a pessoa não reza, reza pouco, barulhento, não faz uma leitura orante da Palavra, não faz essa meditação no silêncio; porém, para esta alma tudo está tranquilo porque – não vive de sentimentalismo, aliás – ela ler bastante livros cristãos. Faz leitura de vários e vários livros da vida dos santos, livros sobre as maravilhas da oração, sobre a tradição da Igreja, le sobre os Concílios, sobre os mártires, faz uma leitura intelectual da Bíblia... Ó que comunhão com Cristo! Não! Comunhão com a soberta. Pois, segundo o que ensinam os santos, podemos concluir que nas Sagradas Escrituras e nas demais piedosas leituras procuramos a Deus, mas na oração o encontramos. Talvez você saiba decorado versículos e versículos bíblicos, textos inteiros de santos, a ordem dos Papas de Pedro até Francisco, tudo “tim tim por tim tim” da tradição da Igreja e da vida dos santos... mas e a oração? E o silêncio? As vezes a gente não faz oração porque vamos ler um livro que fala de oração. Mas depois rezamos, neh? Não, depois nos distraímos lendo um livro que fala de outro assunto. E assim, o demônio vai camuflando nossa falta de oração, nosso “barulho interior”, com essa falsa piedade. O estudo, a boa leitura é muito importante para nos auxiliar na caminhada com Deus, mas jamais pode ser empecilho para a vida de oração, para a vida de intimidade com o Senhor. Por isso diz Santa Teresa de Ávila que quando uma pessoa entra na vida de oração, o inferno todo se levantará para tirá-la. Que nada, nem os bons livros, te tirem da união íntima com Aquele que os bons livros devem levar: Jesus Cristo. Faça silêncio. Leia com moderação. Silencie sempre. Fale sob inspiração do Espírito Santo.

E se você é um religioso que existe regra de silêncio ou algo do tipo, veja o que Santa Faustina fala, ela viu religiosas no inferno porque não cumpriram as regras, mesmo que pequenas, penso eu, a respeito do silêncio. Santa Faustina também fala que uma pessoa que guarda o silêncio sempre age sob ação do Espírito Santo.

Que Nossa Senhora, a Virgem do silêncio, nos ajude a silenciar exterior e principalmente interiormente para que, a Seu exemplo, vivamos em todas as nossas ações sob a inspiração do Espírito Santo.

Salve Maria Imaculada, nossa Co-Redentora e Mãe! Viva Cristo Rei!

Um comentário:

  1. Meu Deus!!você falou tudo o que eu precisava ouvir...me ajudou imensamente enxergar onde está minha aridez...Deus abençoe sua vida!

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