segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Somos SACRÁRIOS VIVOS da Eucaristia



Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.” (João 6,56)

Salve Maria Imaculada!

Bendito seja Deus porque somos Católicos! E bendizer a Deus por isso não é de forma alguma desrespeitar outras denominações. Mas é, antes de tudo, uma questão de essência. Não quero entrar no mérito da patrística; do primado de Pedro; de Jesus ter fundado a Igreja. Aqui tem outros posts sobre isso. Mas a questão é a essência. Nós somos alimentados pelo Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Sim! Somos alimentados pela Carne e pelo Sangue Precioso de Jesus Cristo. E quem come a carne de Jesus e bebe o Seu Sangue, permanece nEle; e Jesus permanece nessa pessoa. Bendito seja Deus, pois nós nos alimentamos verdadeiramente do Corpo e do Sangue de Cristo.

Meus queridos irmãos e irmãs, não podemos fazer da Eucaristia um alimento qualquer (cf. Malaquias 1,12). Ela é toda a fonte da nossa vida. Quem não come a carne de Jesus e não bebe Seu sangue, não encontra a vida em si mesmo (cf. João 6,53). Então, porque muitos católicos têm deixado a verdadeira adoração eucarística? Ah, como é triste ver que Jesus é abandonado não somente nos sacrários das Igrejas pelo mundo todo; mas pior ainda, é esquecido nos corações das pessoas que comungam mas não adoram. Talvez seja mais doloroso para Jesus ser esquecido num coração frio, gelado, de pedra, do que estar esquecido no sacrário sem ninguém visitá-lo. Como dói ver a indiferença de muitos no Santo Sacrifício. Ah, como deve doer o coração de Cristo. Deus que manifesta Seu amor de forma escandalosa na cruz, e depois fazendo da sua carne alimento, tomando a forma e gosto de pão e vinho, o homem despreza o seu Deus. Quantos acham que a Missa é demorada? Quantos ainda comungam sem nem mesmo ter consciência de que se trata da Carne de Jesus? Quantos ainda mais, até mesmo sabendo, comunga e não faz ação de graças? Quantos já estão doidos para a benção final para irem embora...? Isso quando não vão embora antes da benção final... E quantas paróquias tiram a adoração a Deus, tanto na profanação do culto, mas também tendo maior tempo para avisos paroquiais do que para momento de ação de graças? Dói, mas parece que Cristo não é mais Senhor em algumas comunidades.

Nós temos que ter essa consciência bem formada, que nós nos unimos com Deus. Quando nós comungamos o Corpo e o Sangue de Cristo, é como se fosse um casamento; eu passo a ser uma só coisa com Cristo. Eu permaneço n'Ele, e Ele em mim. Por isso, quando comungamos em estado de graça, deveríamos dizer o mesmo que Jesus diz sobre o matrimônio: o que Deus uniu, o homem não separe! Sim, se Deus Pai nos uniu com Seu filho na Eucaristia, e consequentemente com ele, que nada e nem ninguém nos separe do Seu amor! Jesus diz para Santa Faustina que somente o pecado mortal O afasta da alma. Ou seja, peçamos a Cristo, quando comungarmos, que o pecado nunca nos separe de sua graça. E quantos e quantos comungam em pecado. Que tristeza. Que o Senhor nos dê a graça do autoconhecimento, da contrição, e a graça de confessar todos os nossos pecados, para assim, de forma digna – pela dignidade do sangue de Cristo e do Coração de Nossa Senhora, porque por nós mesmos não somos dignos de nos aproximarmos do banquete do Cordeiro de Deus – possamos comungar com os frutos necessários para a nossa salvação.

Sabendo que Cristo permanece em nós, deveríamos ser raios luminosos que espalham Cristo pelo mundo inteiro. Se só o pecado mortal separa Jesus da alma, Cristo está 24h em comunhão conosco. Por mais que estudiosos falem que as espécies permaneçam cerca de 15 minutos na pessoa (tempo mínimo recomendado de ação de graças que deveríamos fazer), Jesus mostrou na vida de muitos santos, como Santa Faustina, que se fazia sentir presente durante todo o dia, ou melhor, até a próxima Comunhão. Claro que não devemos procurar a sensibilidade necessariamente, mas se Cristo se distancia de nós, e se pior, depois de sairmos da Igreja, não agimos como Cristãos, cometendo pecados por cima de pecados, logo após, 10, 15 minutos depois de ter comungado, é porque nós não cremos. É porque nós comungamos o Corpo de Cristo, e logo depois já desviamos o pensamento de Cristo. Já pensamos em coisas, pessoas, diversões. Enfim, se Comungássemos Cristo, e deixássemos Ele agir em todo o nosso ser, nosso corpo, nossa alma, nossas faculdades, a luz de Cristo brilharia em nós, e através de nós, o mundo a nossa volta seria revestido da Misericórdia de Deus.

Meus irmãos, se nós ao sairmos da Igreja, tivermos a consciência plena de que Cristo está dentro de mim, que sou um sacrário vivo, o mundo seria diferente. Sabe por quê? Porque enquanto você sai da Igreja em direção a sua casa ou para onde você vai, não será apenas um caminhar, mas será uma procissão; sim, uma procissão do Santíssimo Sacramento em via pública. Meus irmãos, neste mundo cada vez mais ateu, desviado, largado, com o espírito de satanás triunfando no mundo; se você crer mesmo na presença de Jesus na Eucaristia, você sairia da Missa cantando louvores a Deus, andando pelas ruas abençoando aquele lugar; ou com o terço rezando em ação de graças, unido ao Coração de Maria, fazendo se cumprir a profecia de Dom Bosco: a coluna do Santíssimo Sacramento e da devoção Mariana sustentando a Igreja. Meus irmãos, olhem a quantidade de gente que comunga nas nossas Missas... Agora imaginem essas pessoas andando pelas ruas, com a chama eucarística em seus corações... Olhem como que de um radar... Conseguem imaginar o fogo eucarístico se espalhando? Conseguem ver Jesus chegando em tantos lugares? Meus irmãos, talvez você sonhe com uma procissão do Santíssimo Sacramento na sua cidade. Mas talvez seu pároco ou Bispo não permitam. Mas acorda! Quando você comunga, você pode sair andando pelas ruas, Cristo está dentro de você, e o próprio Senhor vai abençoando os lugares e pessoas por onde você passa; você se torna um sacrário, um ostensório vivo, imitando a Virgem Maria. E se quando nós voltamos da Missa, e saudamos as pessoas, e elas não se tornam cheias do Espírito Santo, é porque talvez nós não estejamos crendo na presença do Cristo que acabamos de comungar. Porque quando comungamos, nós nos tornamos novas Maria no mundo, a levar o Cristo para tantos doentes, tantos fracos, tantos exilados, talvez na desgraça do pecado mortal.

O que falo pode parecer loucura. Mas é a verdade, e vemos isso na vida dos santos. Olhem a vida dos três pastorinhos de Fátima. Meu Deus! Como me encanta ver a vida dessas três crianças, Beata Jacinta, Beato Francisco, e Irmã Lúcia. Meu Deus! Que santidade! Que pureza! Que amor mariano! Que amor eucarístico! Quero citar algo que ocorria entre Jacinta e Lúcia, que muito me toca, em relação ao amor que a Beata Jacinta alimentava por Jesus Eucarístico; ou melhor, por Jesus escondido, como chamava a mesma. Jacinta não podia comungar na Igreja. Então, Imã Lúcia nos narra o seguinte: “Quando, às vezes, voltava da igreja e entrava em sua casa, perguntava-me: 'Comungaste?' Se lhe dizia que sim: 'Chega-te aqui bem para junto de mim, que tens em teu coração a Jesus escondido.'” Meu Deus do Céu! Isto é belo! É belíssimo! É magnífico! Ela não podia comungar nosso Senhor, mas o seu amor por Jesus era tão grande, que, ela sim cria em Sua presença real na Eucaristia, chegava próximo de Irmã Lúcia, ou melhor, lhe puxava, e reclinava sua cabeça no peito de Irmã Lúcia, pois o peito de Irmã Lúcia (no casa ainda a criança Lúcia) era naquele momento um Sacrário vivo, era onde estava reinando o Rei Jesus, sendo adorado por Lúcia, e pela Jacinta. E digo mais, adorado também pelos anjos. Quando comungamos, não duvidaria de ver aos pés de cada comungante uma legião de anjos adorando a Jesus; até porque se nós mesmo abandonamos Jesus, nossos anjos da guardo e outros anjos tem que adorar em reparação.

Meus irmãos, minhas irmãs, devemos ser como Lúcia e como Jacinta. Devemos ter essa santidade, essa pureza, esse amor por Jesus Eucarístico. Primeiro, ao comungar, devemos ser como Lúcia: com a graça do próprio Deus que comungamos a carne, nos preservarmos de cair em pecado mortal, e nem mesmo venial na medida do possível; e partir na missão, sair, nos vizinhos, nos hospitais, nos presídios, nas ruas, pros mendigos, a presença de Jesus Eucarístico. Meu Deus! Devemos deixar que as pessoas reclinem suas cabeças sobre nosso coração, e não escutem o nosso coração, mas o coração de Jesus que comungamos, a bater, e a derramar amor para a pessoa que está a precisar do amor de Jesus. Ó! Que mistério grandioso. Eu não sou padre, eu nem ministro EXTRAORDINÁRIO da Eucaristia sou, mas ao comungar eu posso levar a Eucaristia para um doente em estado terminal em um hospital. Sim, eu posso. Eu posso porque levarei não para que ele comungue, mas para que a presença de Jesus se faça real ali, e, unidos a oração, ele obtenha a cura do corpo (se for vontade de Deus), mas principalmente da alma. Que mistério. Podemos rezar o terço da misericórdia pelos doentes, é promessa de Jesus agir com Sua misericórdia nos doentes pelos quais rezarmos este terço. E se nos hospitais não tem mais capelas, ou então querem proibir os católicos de entrarem com o Sacramento, eles não podem me impedir com o Sacramento em meu peito, e do meu peito Jesus se faz presente, e como num cortejo, a graça de Deus alcança a muitos. Isso vale pros hospitais, presídios, pastorais de rua, enfim, aonde muitos não querem ir, nós podemos levar Deus com o nosso testemunho, e com Ele vivo dentro de nós. Se todos cressem de verdade, seria diferente... Uma escola com milhares de estudantes SACRÁRIOS VIVOS não seria mais a mesma! Da mesma forma uma faculdade, empresa, enfim... E vocês sabem que nesses ambientes muitos comungam, mas poucos deixam-se revestir do Cristo.

E da mesma forma devemos ser como Jacinta. Devemos deixar-nos nos inebriar de um amor profundo, ardente, forte, que tome de conta de nós, e nos consuma por Jesus Eucarístico. Ao ponto de se um dia não pudermos comungar, ao ver que alguém comungou, reclinar a cabeça, fazer um gesto de amor. Sei que num mundo tão bagunçado como está, muitos até pensariam besteira de uma pessoa abraçando a outra por Jesus. Mas, ao ver aquela pessoa que porta Jesus em seu coração, deveríamos ver que Jesus nos visitou, e elevar mais fortemente nosso pensamento a Ele, adorando-O, manifestando nosso amor e nossa gratidão por Ele está ali, e por ter usado essa pessoa como um SACRÁRIO, ou melhor, como um ostensório. Ah meus irmãos, seriamos como brasas, andando de um lado para o outro levando o fogo do divino amor para onde nós andássemos. Ah, como nos falta ser como Lúcia e como Jacinta. Principalmente como Jacinta, que é amor acima de todas as coisas. Ela amava profundamente a Jesus, porque sofria por não poder comungar. E você? Já chorou por não ir a uma Missa? Claro, podes dizer que não é obrigado a ir todo dia. Mas, o domingo é, juntamente com os dias de preceito, e você já chorou por ter perdido uma Missa dessa? Meus irmãos, amor não é o que eu e você sentimos, amor é o que Jacinta sentia. Quando ela mesmo sem poder comungar, ia à Missa todo dia, e lhe perguntavam porque ela ia todo dia sem a necessidade por não ser domingo, sabe o que ela dizia? Ela dizia: “Não importa! Vou pelos pecadores que nem ao domingo vão.” - Olha que belo! O amor a Jesus Eucarístico e o espírito de reparação, de penitência pelos pecadores. Me perdoe, mas o que muitas vezes eu e você sentimos, não é amor, é uma paixão, que se alimenta de emoções, sentimentos, gostos, prazeres. Amar é ir pra Missa todo dia, mesmo ela não podendo comungar, em reparação e porque amava. E ainda mais quando via alguém, como sua prima Lúcia, que comungava, achegava-se para perto, para adorar a Jesus. Ah, isso é amor. Eu fico agora imaginando, o quanto o coração desta menina exultou, o quanto ela amou a Jesus, no dia em que o Anjo apareceu para os três pastorinhos, e lhe deu de beber do Sangue do Senhor num cálice. Aquela pequena criança deve ter se tornado uma gigante em matéria de adoração, deve ter amado o Senhor de uma maneira a fazer inveja a qualquer serafim.

Meus irmãos, nos alimentemos, até diariamente se for possível, do Corpo e do Sangue do Senhor. Mas o amemos, amemos de todo coração. Não busquemos consolações, se elas vierem, bendito seja Deus! Mas se não vierem, amamos de coração. Deus não é obrigado a nos fazer favores. Deus os faz porque é misericordioso e bom para conosco. Ah, amemos, amemos, adoremos, adoremos a Jesus na Eucaristia. Imitemos Lúcia, que adorava, e a partir de agora, quando comungarmos, vivamos toda a nossa vida, como um cortejo, uma procissão, tendo consciência que tem um Rei dentro do nosso coração, e estamos levando-o para que seus súditos O adorem por onde quer que nós andemos. Cuidado com suas ações. Além de manchar o coração onde está o Rei Jesus, ainda afasta as pessoas deste Rei pelo teu péssimo testemunho. Por isso ame, adore, e mostre isso com o teu testemunho de vida. E seremos para sempre, brasas vivas, lâmpadas, iluminando onde tem trevas. O que me vem a mente é em Fátima, a procissão das velas. Quando comungamos, se todos nós crermos, acontecerá isso: velas acesas iluminando tudo ao redor. Olhem fotos, e vejam que em cada pessoa que comunga, é como se se acendesse esse foto, a levar claridade a quem jaz entre as trevas.

Para concluir, quero citar mais uma coisa que Lúcia fala em suas memórias sobre a Beata Jacinta: “Noutra ocasião, levei-lhe uma estampa que tinha o sagrado cálice com uma hóstia. Pegou nele, beijou-o e, radiante de alegria, dizia: 'É Jesus escondido! Gosto tanto d'Ele! Quem me dera recebê-Lo na igreja! No Céu não se comunga?! Se lá se comungar, eu comungo todos os dias. Se o Anjo fosse ao hospital levar-me outra vez a sagrada comunhão, que contente que eu ficava!'” O que mais dizer do amor desta pequena por Jesus? Semelhante a Beata Imelda, 8 anos de idade, que perguntava “como vocês podem comungar e não morrer de amor?”; certo dia, Jesus voou do altar para sua boca, e ela comungou Jesus pela primeira vez; quando as irmãs foram olhar, pois demorava demais sua ação de graças, verificaram que ela estava morta. Ela morreu de amor. Isso não nos impulsiona a amar Jesus? Se nós, até aqui, não amamos Jesus de verdade, Ele é misericórdia, e nos chama a amarmos. Deus não olha a perfeição do nosso amor, amor perfeito só o d'Ele. Ele olha a sinceridade. Peçamos a Deus a graça de que aumente a chama do nosso amor por Ele. Ao ponto de, como Jacinta, querer comungar todos os dias. Pois muitos de nós comungamos todos os dias, mas não alimentamos tanto amor. Peçamos ao próprio Amor que é Deus, que nos incendeie, nos inflame em seu divino amor.


Salve Maria Imaculada, primeiro Sacrário Vivo da Eucaristia! 


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O NOVO PENTECOSTES VEM DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA


Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele.[...] Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (Atos dos Apóstolos 1,14/2,1-4)

Salve Maria Imaculada!

Muito se tem escrito e pregado sobre esta passagem que acabamos de ler. Mas gostaria de forma particular em chamar a atenção para o trecho sublinhado. Muitos não vivem este Novo Cenáculo – ou estão vivendo um falso cenáculo – porque não se atentaram para estre trecho. Diz a Sagrada Escritura que os Apóstolos perseveravam unanimemente na oração com Nossa Senhora. Não foi isso? Permaneciam em oração com todos que estavam lá, obviamente, porém, a Cheia de Graça estava a orar com eles. E onde a Cheia de Graça, onde a Imaculada, onde a Esposa do Espírito Santo está, aí também está o Santo Espírito. Aí está o segredo: se queremos viver um novo Pentecostes, ser mergulhado, viver uma nova Efusão do Espírito Santo, devemos ser devotíssimos da Virgem Maria. E quanto mais amarmos Maria Santíssima, quanto mais deixarmos agir por meio dEla, mais cheios do Espírito Santo nós seremos.

Isso é mostrado na própria Sagrada Escritura. De todos os que estavam no Cenáculo esperando o envio do Paráclito, somente a Virgem Maria já o conhecia. Claro, todos tiveram experiências, viveram com Cristo, viram o poder de Deus se manifestar. Mas uma experiência pessoal, eles não tiveram. Mas a Virgem Maria sim. O anjo Gabriel disse para Nossa Senhora: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra.” (Lc 1,35). E de fato, o Espírito Santo desceu sobre Ela, envolveu, a tomou por completo, e nossa Mãe querida se tornou cheia do Espírito Santo. Para gerar o Filho de Deus Ela se tornou a Esposa muito amada do Espírito Santo.

Onde Maria Santíssima está, aí também se encontra o Espírito Santo. Para entendermos o porque a oração de Nossa Senhora atraiu de forma extraordinária o Espírito Santo naquele Cenáculo, nós podemos ler o que ocorreu com Santa Isabel quando a Virgem Maria lhe visitou: “Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!'” (Lc 1,39-45) -Observem a parte em destaque! Ora, apenas Nossa Senhora saudou Isabel, João Batista no seio de Isabel estremece de alegria, e a própria Isabel fica cheia do Espírito Santo. É isso o que acontece com quem se aproxima de Nossa Senhora: fica cheio do Espírito Santo e estremece de alegria. Exulta! E adora ao Deus uno e Trino! Por isso que no Cenáculo o Espírito Santo veio e tomou de conta de tudo. Deus Pai e Jesus enviaram o Santo Espírito que, não apenas com a presença de Sua Esposa com os Apóstolos, mas ouvindo clamor de Maria Santíssima, desceu e trasbordou. Todos foram queimados na sala do Cenáculo. Foram queimados pelo fogo do divino amor. Por isso é válido dizer que quem não faz como Isabel que bendisse Maria Santíssima, não está cheio do Espírito Santo. Pois quanto mais uma pessoa saúda Maria e lhe bendiz, mais Ela é cheia do Espírito Santo; e quanto mais ela é cheia do Espírito Santo, mais saúda Maria Santíssima e lhe bendiz.

Isso é uma verdade que foi esquecida por muitos. Sem Nossa Senhora não tem novo Cenáculo. Só tem gente clamando. Mas o nosso clamor só será atendido de forma plena unidos ao Coração materno de Nossa Senhora. Nós vemos muitos grupos de oração, na maioria da Renovação Carismática Católica, clamando um novo Pentecostes, mas jogam fora o “imã” que atraiu o Espírito Santo. Quantos e quantos grupos de oração jogam a Virgem Maria para o canto, como se fosse dispensável! É uma tristeza enorme constatar essa realidade. Um momentinho brevíssimo (quase que sistema de cotas ou algo “só pra não dizer que não falei de Maria”), nem rezam o terço (nem no grupo e nem no dia a dia de forma pessoal), e o que temos visto? Cada vez mais grupos menos católicos e mais protestantes. Grupos vazios... Não que o grupo de oração tenha que estar sempre lotado. Muitas vezes o Espírito Santo opera maravilhas retumbantes quando tem poucas pessoas no grupo; mas vemos muitos grupos vazios não só de pessoas, mas de unção. Vazios de essência, de amor, de verdade. E por mais que eu procure respostas para o esfriamento espiritual que vive a Igreja em muitos lugares, e o esfriamento (e por que não apostasia) da RCC, a única resposta que me vem é: largaram a devoção a Nossa Senhora.

A Beata Elena Guerra, padroeira da Renovação Carismática Católica aqui do Brasil, escreveu algumas cartas ao Papa Leão XIII pedindo a consagração do Século XX ao Espírito Santo. Ela recebeu essa inspiração. E ela mandou ao Papa uma novena de Pentecostes. Mas eu queria chamar atenção para a primeira Carta que ela escreveu ao Papa Leão XIII nessa intenção. Na carta datada do dia 17 de Abril de 1895, a Beata escreve algo que talvez para muitos não passe de uma análise histórica; porém, já seria um gancho para uma profecia que estaria por vir. Diz Elena Guerra: “Santo Padre, o mundo é mal, o espírito de satanás triunfa na pervertida sociedade e uma multidão de almas se distanciam do Coração de Deus. Nestas tristes condições, os cristãos não pensam em dirigir unânimes súplicas Àquele que pode “renovar a face da terra”. - Em primeiro lugar parece com o Cenário atual em que nós vivemos, não? O demônio solto, a sociedade cada vez mais pervertida, e até mesmo dentro da Igreja a gente vê o demônio zombando de Deus. Será que não tem faltado a gente rezar pedindo ao Espírito Santo que renove a face da Terra? De fato, falta oração. Só que nessa mesma carta, a Beata Elena Guerra no alto fervor ao pedir a consagração do século XX ao Espírito Santo, fala mais uma coisa que é a chave de vivermos no esfriamento espiritual: “E a nossa amadíssima Mãe Maria que esteve com os Apóstolos naqueles nove dias benditos, e com eles orou, não estaria também conosco neste Novo Cenáculo? E não nos concederia antecipadas e copiosas misericórdias?” Olha só! Não! Infelizmente, não. Não, Beata Elena Guerra, muitos dos que dizem clamar um novo Pentecostes, um Novo Cenáculo, esqueceram a nossa amadíssima Mãe Maria, e por isso não nos são mais concedidas antecipadas e copiosas misericórdias. Por isso está tudo seco. Repito: tiraram o “imã” que atraia o Espírito Santo. E aqui, a própria padroeira da RCC do Brasil diz que este Novo Cenáculo é com Nossa Senhora. Se você achar a devoção a Nossa Senhora algo dispensável, ou algo comum, algo que não influencia em nada para você se tornar “cheio do Espírito Santo”, você é um hipócrita e se você não se consagrar inteiramente à Nossa Senhora, em pouco tempo se tornará um herege protestante. Porque é isso o que tem ocorrido. Quer os dons e carismas do Espírito Santo? Queira também a Virgem Maria que é a tesoureira e distribuidora destes dons e carismas, e assim, por ação dEla, serás livre da ilusão do demônio.

O fato é que o século XX foi consagrado ao Espírito Santo. Algumas pessoas gostam de ligar este acontecimento ao Concílio Vaticano II. Afinal, o Beato João XXIII na abertura do Concílio pedia um novo Pentecostes. Tem a ver? Talvez. Outras pessoas costumam ligar esta consagração ao fato do surgimento dos movimentos carismáticos (lembrando que os dons e carismas existiram, porém não em fenômenos de massa como passou a surgir na segunda metade do século XX). Tem a ver uma coisa com a outra. Talvez. O que eu tenho de certeza no meu coração é que essa consagração do século XX ao Espírito Santo tem a ver com um outro fenômeno que parou o mundo todo, mas poucos fazem essa ligação. A Beata Elena Guerra escreve ao Papa em 1895 dizendo ao Papa que o mundo é mal, o espírito de satanás triunfa na pervertida sociedade e uma multidão de almas se distanciam do Coração de Deus. Ora, São Maximiliano Maria Kolbe dizia que “Maria, porém, é tão indizível e perfeitamente unida com o Espírito Santo, que ele não age de outra maneira, a não ser por meio dela, sua esposa”. Ou seja, o que é consagrado ao Espírito Santo, automaticamente também o é a Nossa Senhora; e o que é consagrado à Nossa Senhora, também o é, perfeitamente, ao Espírito Santo. Onde está o Esposo (Espírito Santo) está a Esposa (Maria Santíssima). E no século consagrado ao Espírito Santo, quem trouxe a resposta foi Nossa Senhora.

espírito de satanás triunfa na sociedade; Nossa Senhora aprece em Fátima em 1917 e diz: POR FIM O MEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFARÁ! Ou seja: “satanás sua ameba insignificante, você tem triunfado, aparentemente ganhado, pois o mundo se tornou mal, e tudo são ofensas a Deus. Mas fique sabendo seu dragão maldito, que POR FIM quem triunfará será o Imaculado Coração de Nossa Senhora! Por fim a Mulher vence o Dragão (Apocalipse 12).” Eis a resposta, mostrando mais uma vez que o Novo Pentecostes vem do Imaculado Coração de Maria. E se nós temos que clamar o Espírito Santo para que renove a face da terra, temos que fazer isso em união com o Imaculado Coração de Maria; pois de outra maneira, a face da terra não será renovada, pois essa renovação consiste no triunfo do Imaculado Coração de Maria. Por isso é comum nós vermos grupos vazios, ou mesmo cheios, onde não tem unção, ou outros com sentimentalismo exagerado; e o comum entre eles: falta de devoção à Nossa Senhora. O povo está em pecado dentro da própria Igreja porque tiraram Nossa Senhora do lugar dela, e, perdoem-me o termo, pisaram na Virgem Maria. Enquanto nós só receberemos a efusão do Espírito Santo por meio de Nossa Senhora, a gente continua vivendo de migalha, de fagulhinhas, enquanto a gente tem o fogo que não se apaga. E esse fogo vem do Coração de Nossa Senhora.
Se a Beata Elena Guerra, em sua primeira carta ao Papa pedindo a consagração, dizia que o

Quer mais provas? Pois bem. Um dia Nosso Senhor Jesus Cristo pediu para Santa Faustina rezar uma Novena por sua pátria, a Polônia. A novena consistia em ela fazer, por nove dias, uma adoração ao Santíssimo Sacramento EM UNIÃO COM O CORAÇÃO DE NOSSA SENHORA. Ela pediu autorização aos superiores e fez. O que aconteceu? Em um dos dias da novena, enquanto ela adorava o Santíssimo Sacramento, ela viu Nossa Senhora no céu, e do coração de Nossa Senhora saiam raios de fogo. Alguns destes raios de fogo subiam ao Céu e outros cobriam a terra. Ora, meus caros irmãos e irmãs, o que será que isso significa? Não sejamos cegos! Se nós clamamos o fogo do Espírito Santo, você tem que clamar por meio de Nossa Senhora, porque o fogo do Espírito Santo vem do Imaculado Coração de Maria. Nesta visão nós podemos ver que nossas orações sobem ao Céu por meio do Imaculado Coração de Maria; e as graças e bençãos do Céu descem até nós por meio do mesmo Imaculado Coração. O fogo do Espírito Santo que virá sobre a terra e “renovará a face da terra” vem deste Imaculado Coração. Querer Espírito Santo sem querer Nossa Senhora é hipocrisia (pra não dizer burrice). Deixe de ser besta, se consagre a Nossa Senhora e passe a rezar o Rosário, e verás as maravilhas de Deus na sua vida.

Tudo isso confirma o que São Luís Maria Grignion de Montfort já havia dito ao escrever o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Disse são Luís: Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá – um Deus-homem; e ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos, que aparecerão no fim do mundo, lhe está reservada, pois só esta Virgem singular e milagrosa pode produzir, em união com o Espírito Santo, as obras, singulares e extraordinárias. Quando o Espírito Santo, seu esposo, a encontra numa alma, ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude, comunicando-se-lhe abundantemente e na medida em que lhe concede sua esposa; e uma das razões por que, hoje em dia, o Espírito Santo não opera, nas almas, maravilhas retumbantes, é não encontrar ele uma união bastante forte entre as almas e sua esposa fiel e inseparável.” (T.V.D nº 35 e 36) – Isso é óbvio! Se hoje existe um esfriamento espiritual, se hoje nós vemos o Espírito Santo fazendo pouco (pelo menos em relação ao que Ele gostaria de operar), é porque não tem encontrado em nossa alma a Virgem Maria. Isso é claro na própria Renovação Carismática Católica. Ela foi e é sustentada por Nossa Senhora. No dia que abandonarem de vez a Virgem Maria, cai tudo. Falo isso porque sempre é falado que os próprios que estavam no surgimento da RCC, quando vem ao Brasil, falam que se não voltarem a devoção a Nossa Senhora, a RCC acabará. Muitos citam abusos da RCC. De fato, no Brasil ela tem sido muio zoada. Mas, no geral, é mais no Brasil que acontece essa papagaiada. Motivo? Falta de devoção a Virgem Maria. Se nós queremos ver o Espírito Santo operar maravilhas retumbantes, milagres, ver uma nova unção e ver o Espírito renovar a face da terra; devemos clamar Àquele que pode renovar a face da terra, mas em união com Nossa Senhora; devemos clamar a Virgem Santíssima que disse que Seu Coração triunfaria; devemos clamar o fogo vindo do Coração Imaculado de Nossa Senhora. Se falam de Pentecostes, de Cenáculo, mas não falam de Nossa Senhora, tome cuidado. Aqui devemos entender que o Cenáculo deve ser mais do que com Nossa Senhora; o Cenáculo aqui é a própria Virgem Maria, é o Seu Imaculado Coração.

E São Luís ainda dizia: “Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel esposa, seus dons inefáveis, escolhendo-a para dispensadora de tudo que Ele possui. Deste modo ela distribui seus dons e suas graças a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom nenhum é concedido aos homens, que não passe por suas mãos virginais.” (T.V.D 25) – Pois é, e tem gente que insiste em clamar o Espírito Santo sem Nossa Senhora. Fazer isso é tomar posse de um orgulho luciferino. Claro que não devemos buscar a Deus e a Virgem Maria unicamente pelos dons e carismas. Mas se Deus os concede, concede por meio de Nossa Senhora. E se a pessoa fica clamando dons, carismas, graças, sem Nossa Senhora, muitas vezes, cai num perigo gritante de estar em erro. E nessa brincadeirinha, não poucos caíram em heresias e se perderam. Simplesmente porque não tiveram a humildade de pedir por meio de Nossa Senhora. O mesmo orgulho luciferino presente nos protestantes que dizem “posso pedir direto a Deus”. E muitas vezes, clamam, clamam, clamam, se cansam, o diabo entra no meio da história, e se perde. Mas se clamassem com o Rosário, se clamassem com um “Vinde Espírito Santo, vinde por meio do Imaculado Coração de Maria, vossa amadíssima Esposa” o Espírito Santo incendiaria o nosso ser. Mas infelizmente muitos tem deixado de clamar com Maria, por Maria e em Maria. E por isso o teu fogo é fogo de palha. Os consagrados a Virgem Maria que lhe são fiéis não tem fogo de palha, pois o fogo que lhes queima é alimentado pela chama viva do Coração de Nossa Senhora. É um fogo que nunca se apaga. Pode cessar os carismas, consolações espirituais, ações extraordinárias, pode vim cruzes, tormentos, tentações, pertubações, perseguições, mas quando se é consagrado a Nossa Senhora, mas um consagrado fiel mesmo, tem sempre o fogo sendo alimentado pela Virgem Santíssima.

Quando até temos uma experiência com o Espírito Santo, mas, humanamente, se quer deixar Nossa Senhora de lado, acaba-se por se tornar algo sentimental. Ela é quem forma os santos e fará com que a pessoa persevere. Já ouvi falar de coordenador de grupo de oração que falou que você pode rezar um Rosário, mas nada se compara a uma oração ao Espírito Santo. Pobre coitado! Com o que já vimos aqui neste texto, vemos que ele está redondamente enganado. Se lermos outro livro de São Luís chamado “O Segredo do Rosário” veremos as maravilhas retumbantes que o Rosário opera. Aliás, o próprio Papa Leão XIII indicava o Rosário para a união dos cristãos. No livro “O Segredo do Rosário”, São Luís cita que um padre encontrou uma ordem religiosa destruída: povo sem viver a regra, entregues ao pecado, enfim, uma perdição toda. O padre ao pregar lá, ao invés de pregar contra a imoralidade encontrada lá, o que fez? Pregou sobre o Rosário! E o que aconteceu? Pasmem! As religiosas abraçaram a devoção ao Rosário, e em pouco tempo elas emendaram suas vidas e elas mesmas pediram para que reformassem a ordem e mudassem a regra para que fosse mais rígida. Ora, o que fez com que mudassem de vida? O Rosário! Por acaso essa não é a ação do Espírito Santo? Como são cegos. Pregam o sentimentalismo, e não a ação do Espírito Santo. Sabem por que nos grupos as pessoas até sentem consolações mas não se convertem? Porque nem se prega e nem se reza o Rosário. Nem mesmo os pregadores e os coordenadores. Aliás, muitos nem mesmo o Santo Terço tem rezado. Mas se brincar pra uma heresia protestante são abertos. Vai entender esse povo.

Para você entender como o Espírito Santo age por meio de Nossa Senhora, e que a devoção a Nossa Senhora é necessária para a nossa salvação, veja só o que São Luís nos cita no “O Segredo do Rosário” citando São Domingos de Gusmão:

Evite cuidadosamente fazer o que certa piedosa mas voluntariosa senhora de Roma fez. Era uma pessoa tão piedosa e fervorosa que com sua vida santa confundiu os religiosos austeros da Igreja de DEUS.
Ao pedir a São Domingos que lhe aconselhasse sobre sua vida espiritual ela pediu-lhe que a ouvisse em confissão. Por penitência, ele lhe mandou que rezasse um Rosário completo e aconselhou-a que o rezasse diariamente. Ela disse que não tinha tempo para rezá-lo, desculpando-se e dizendo que tinha que fazer as Estações de Roma todo dia, que vestia roupas de sacas, camisas de cilício, que tomava disciplina sobre si várias vezes por semana, que tinha tantas outras penitências e que jejuava bastante. São Domingos aconselho-a novamente e várias outras vezes a seguir seu conselho e rezar o Rosário, mas ela continuava a recusar. Ela saiu do confessionário, horrorizada pela tática de seu novo diretor espiritual, que arduamente lhe persuadia a seguir a devoção que não era de seu agrado.
Mais tarde, quando ela estava orando, caiu em êxtase, e viu sua alma se apresentando diante do Trono do Julgamento de NOSSO SENHOR. São Miguel pôs todas as suas penitências e outras orações em dos pratos da balança e todos os seus pecados e imperfeições no outro. O prato das boas obras ficou grandemente suspenso sem conseguir equilibrar ao outro dos pecados e imperfeições.
Cheia de espanto ela clamou por misericórdia, implorando o auxílio da Santíssima Virgem, sua graciosa advogada, que pegou o único Rosário que ela tinha rezado por aquela penitência e o pôs no prato das boas obras. Só este único Rosário era tão pesado que pesava mais que todos seus pecados e também suas boas obras. Nossa Senhora, então, repreendeu-a por não ter seguido o conselho de seu servo Domingos e por não ter rezado o Rosário diariamente.
Logo que voltou a si, correu e se pôs aos pés de São Domingos e lhe disse o que acontecera, implorou seu perdão por não ter acreditado e prometeu rezar o Rosário fielmente todos os dias. Por este meio ela se elevou à perfeição cristã e finalmente à glória da vida eterna.
Vocês que são pessoas de oração, aprendam disto quão grandioso é o poder, o valor e a importância desta devoção do Santíssimo Rosário quando o mesmo é rezado e unido à meditação sobre os Mistérios.”

É, muitos ainda dizem que é melhor fazer uma oração ao Espírito Santo. Pobres coitados. Pobres hipócritas. Além de se contentar com folgo de palha e não com a verdadeira fogueira, ainda colocam em risco a própria salvação.

Acho que por hora basta para entendermos que o Espírito Santo só haje por Maria Santíssima. Leia o Tratado da Santíssima Virgem Maria, escrito por São Luís Maria Grignion de Montfort, e se consagre como escravo por Amor de Nossa Senhora. Sejamos todos escravos de Maria. Sejamos escravos de Jesus por Maria. Para vocês terem uma ideia de como o Espírito Santo age na vida dos escravos de Nossa Senhora, olhem a vida de São João Bosco, do próprio São Luís, do Beato João Paulo II, Santa Teresinha, Santa Faustina. Enfim, olhem a vida da Beata Elena Guerra. Isso mesmo! A Beata Elena Guerra era escrava de Nossa Senhora desde os cinco anos de idade e usava uma fita azul com a medalha de Nossa Senhora como sinal. E para vocês terem uma ideia de sua entrega total à Virgem Maria, a Beata Elena Guerra dizia: “O Espírito Santo comunica-se com maior abundância às almas em que se encontram Maria, pois, assim como Maria Santíssima esteve presente no Cenáculo, também agora para se receber o Espírito Santo é necessário a plenitude de Maria. Se quisermos, também nós, recebermos o Espírito Santo, procuremos ter Maria como mestra, companheira de oração e medianeira de graça.”. Amém?

Por agora é isso. Salve Maria Imaculada, Esposa do Espírito Santo!

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A MISSA E A CELEBRAÇÃO DA PALAVRA SÃO A MESMA COISA? O QUE FAZER QUANDO VOU À MISSA MAS SÓ TERÁ A CELEBRAÇÃO DA PALAVRA?


Salve Maria Imaculada!

Sabemos que é comum que nas nossas Paróquias haja as chamadas “Celebração da Palavra”. Normalmente são celebrações litúrgicas em que se é proclamada a Palavra de Deus, e, comumente, se Comunga o Corpo de Cristo. Mas, infelizmente, em alguns lugares existe um abuso em relação a essas celebrações. Se não da parte da Paróquia, que por necessidade tem que ter essas celebrações na falta de um sacerdote para celebrar a Missa, mas do povo que mal formado – muito mal formado – não distingue a Santa Missa de uma Celebração da Palavra.

Quando falo que o povo é muito mal formado, não estou criticando o povo em si. Mas sim quem tem que formar, porém, não forma. No caso os coordenadores de Capela e/ou Paróquia, juntamente com quem ministra essas celebrações (Diácono ou mesmo um leigo autorizado para tal), deveriam antes das celebrações, ou mesmo durante a celebração (no caso de um Diácono ao pregar) falar ao povo da diferença da Missa, e que ali é apenas uma reunião de fiéis para ouvir a Palavra de Deus e comungar. Mais para frente vocês entenderão o porquê deve-se alertar sobre a diferença. Mas nos atentemos de fato em diferenciar.

A Santa Missa é o Santo Sacrifício de Cristo na Cruz! Na Santa Missa o sacerdote oferece ao Pai o Corpo e o Sangue de Cristo. Na Santa Missa o pão não é mais pão; o vinho não é mais vinho; mas sim Corpo e Sangue de Jesus Cristo! Em primeiro lugar devemos lembrar que a Santa Missa é oferecida pelo sacerdote em primeiro lugar para Deus. Ou seja, é um culto a Deus, um culto de adoração a Deus. Depois por si, e posteriormente pelo povo. É importante falarmos isso porque aqui quebra-se as pernas dos mais liberais que dizem que basta participar da Celebração da Palavra no domingo que já se cumpriu o preceito dominical. Isso é uma mentira. A Igreja nos ensina que para cumprir o preceito dominical deve-se assistir ao Santo Sacrifício da Missa. Obviamente não bastando apenas uma Celebração da Palavra ou uma outra reunião de fiéis.

Mas então o que fazer com quem não pode ir para a Santa Missa, como por exemplo pessoas que moram em cidades que não tem padre e que não podem se dirigir a outro lugar? Neste caso elas não tem culpa, portanto não estão em pecado. E a Celebração da Palavra ou outra reunião de oração entre os fiéis católicos podem servir para santificar o dia de domingo. Só que para nós de grandes cidades, que temos condições de nos dirigirmos para Paróquias vizinhas, a história é outra. Nós, sem as escamas da ignorância, sabendo que para cumprir ao preceito dominical devo participar da Santa Missa e não apenas da Celebração da Palavra, ao chegar em uma Igreja e ser celebrado apenas a Palavra, o que fazer? Obviamente, como bons católicos, iremos voltar no outro horário que que tenha Missa, ou no caso de não ter Missa de forma alguma, iremos a outra Paróquia, certo? Isso é o que era para acontecer. Mas o que muitos fazem é simplesmente Comungar e voltar pra casa como se já tivesse cumprido o preceito; tirar o reto do domingo como lazer e não para adoração. Porque afinal, Deus não merece que eu ande alguns minutos a mais até a paróquia ao lado, ou mesmo não merece que eu pegue um ônibus para ir a uma cidade ao lado (lembrando que nos casos de quem possa fazer isso). Mas não, nós preferimos o comodismo.

E infelizmente isso se dá porque as pessoas não conseguem diferenciar. Tem gente que ao ver alguém questionando sobre se na Igreja terá Missa ou Celebração, responde que “Celebração da Palavra também é bom”... Um bom católico NUNCA deveria falar isso. Por quê? Porque você ter 1 milhão de celebrações da Palavra, mas não tem o valor de uma Santa Missa. Na celebração da Palavra se tem a Palavra sendo proclamada e faz umas orações e Comunga o Corpo de Cristo (que para ser Corpo de Cristo precisou-se de uma Missa anteriormente para então conservar as hóstias consagradas no Sacrário). Na Missa estamos diante do Calvário. A Missa é o tudo da Igreja! Se que muitos acham é bom quando começa a procissão de entrada e não veem o padre, mas sim o diácono sozinho. Afinal, normalmente a celebração é mais rápida que a Missa. Eu falo isso porque eu já pensei isso em épocas de imaturidade na fé. Triste de quem não dá o devido valor a Santa Missa.

É válido lembrar que não estou criticando que se tenha a Celebração da Palavra. Quando for impossível ter um padre celebrando o Santo Sacrifício, é bom que se tenha a Celebração da Palavra. Até porque é bom para o corpo e para a alma, principalmente para aqueles que procuram comungar todos os dias ou o máximo de vezes possível. Afinal, já dizia Santa Faustina: “Tenho medo de mim mesma no dia que não Comungo”. Mas é perceptível que muitas vezes tais celebrações caem no comodismo. Afinal, não se fala ao povo que pra cumprir o preceito direitinho precisa ir pra Missa. Ou seja, se pela manhã não terá Missa, mas celebração, não se avisa ao povo para a Paróquia a noite não ficar superlotada. Aqui encontramos a mesma problemática das Missas do sábado a noite com a liturgia de domingo. Poucos são os que falam que para cumprir o preceito dominical precisa-se ir pra Missa no domingo, mesmo que já tenha ido no sábado, porque a dispensa de ir no domingo é só para caos graves mesmo, e não para o folgado ficar o dia de lazer. Falo isso porque eu tinha uma professora no cursinho que dizia que quando o Flamengo jogava no domingo, ela já ia para a Missa no sábado... Isso é motivo grave que impeça uma pessoa de ir para o Santo Sacrifício da Missa no domingo? Não! E digo mais: isso é idolatria, afinal está colocando um clube de futebol acima do culto a Deus. - E por outro lado a gente vê quem manda nas Paróquias e Capelas se calando pelo fato de que se o povo que for no sábado voltar no domingo vai lotar. É um bom sinal. Sinal que o povo está com saúde e disposto a adorar a Deus. E quem não voltar no domingo sem motivo lícito, é porque simplesmente quer o comodismo e não abraçar a cruz. Aliás, participar da Santa Missa e Comungar o Corpo e o Sangue de Cristo é uma doce Cruz. Mais doce que cruz.

Mas voltando a especificar a situação da Celebração da Palavra, o que estou dizendo é o mesmo que a Igreja Católica Apostólica Romana fala por meio de seus documentos oficiais. Vejamos o que nos ensina o documento REDEMPTIONIS SACRAMENTUM (destaque nosso): «Quando falta o ministro sagrado ou outra causa grave fez impossível a participação na celebração eucarística», o povo cristão tem direito a que o Bispo diocesano, quando possível, procure que se realize alguma celebração dominical para essa comunidade, sob sua autoridade e conforme às normas da Igreja. Por isso, esta classe de Celebrações dominicais especiais, devem ser consideradas sempre como absolutamente extraordinárias. Portanto, quer sejam diáconos ou fiéis leigos, todos os que têm sido encarregados pelo Bispo diocesano para tomar parte neste tipo de Celebrações, «considerarão como mantida viva na comunidade uma verdadeira “fome” da Eucaristia, que leve a não perder ocasião alguma de ter a celebração da Missa, inclusive aproveitando a presença ocasional de um sacerdote que não esteja impedido pelo direito da Igreja para celebrá-la” (nº 164) – O que podemos aprender nesse trecho? Primeiramente que quando se é IMPOSSÍVEL que se tenha um padre para celebrar a Santa Missa, o povo tem o DIREITO de que se tenha pelo menos a Celebração da Palavra. Amém? Em segundo lugar, vemos que em contrapartida essas celebrações dominicais são ABSOLUTAMENTE EXTRAORDINÁRIAS. Ou seja, não podem ser tidas como ordinárias, normal, “é a mesma coisa da Missa”, não! Em outras palavras: que se tenha celebração da Palavra até que se resolva o problema. E principalmente, que se resolva o problema. Graças a Deus, na Paróquia em que participo, e creio eu que na diocese como o geral, não se tem tanto essa questão de “largar de mão”. Sempre buscam padres de fora, mas nem sempre é possível. Entretanto, falha na questão de alertar para quem participa, que os que podem procurar outra paróquia, não só podem, mas devem fazer isso para cumprir o preceito. - E em terceiro lugar nós vemos que no nº 164 deste documento nos alerta que deve-se levar o povo a não perder ocasião alguma de ter a celebração da Missa. É o que já foi dito: buscar trazer padres de fora que tenham a disponibilidade; ou no caso de quem puder, procurar outra Paróquia. Nunca é lícito uma pessoa que tenha condições deixar de ir a Santa Missa achando que basta a celebração.

Na mesma linha o número 165 do mesmo documento nos alerta: “É necessário evitar, diligentemente, qualquer confusão entre este tipo de reuniões e a celebração eucarística.” E no 166 (destaque nosso): “Assim mesmo, o Bispo diocesano, a quem somente corresponde este assunto, não conceda com facilidade que este tipo de Celebrações, sobretudo se entre elas se distribui a sagrada Comunhão, revivendo-se nos dias feriais e, sobretudo, nos lugares onde o domingo precedente, ou o seguinte, se tem podido ou se poderá celebrar a Eucaristia. Roga-se vivamente aos sacerdotes que, ao ser possível, celebrem diariamente a santa Missa pelo povo, em uma das igrejas que lhes têm sido confiadas.” - E falando sobre outras celebrações, até encontros de orações ecumênicos, o referido documento faz o mesmo alerta: “vigiem os pastores para que entre os fiéis católicos não se produza confusão sobre a necessidade de participar na Missa de preceito, também nestas ocasiones, a outra hora do dia” (nº 167)

É válido lembrar que eu entendo a necessidade pastoral em alguns casos. No entanto, fica aqui a crítica em relação a avisar ao povo a diferença. Uma grande dor que sinto é em relação as Missas de 7º dia. Que, aliás, não tem. Por exemplo, uma família vai até a Igreja para oferecer uma Missa pela alma de seu parente que faleceu. No caso é uma Missa de 7º dia. Vai lá, enlutado ainda, e coloca o nome do parente nas intenções. E o que acontece? Na procissão de entrada não tem um padre. E se não tem um padre, obviamente não tem Missa. Está o diácono ou um leigo que recebeu permissão para tal. Muitos familiares que perderam seus entes queridos nem se dão conta da diferença. Acham que é a mesma coisa. Sabemos que muitos nem frequentavam a Igreja. Porém, para as almas do purgatório... Ah, como existe diferença! Como já dito, na Santa Missa é oferecido o Sacrifício de Cristo na Cruz ao Pai, para que adoremos, para que sejam expiados os nossos pecados. Numa Missa de 7º dia ou quando se coloca a intenção de um falecido na Missa, é oferecido o sacrifício de Cristo na Cruz ao Pai... Sim! É oferecido o Corpo e o Sangue de Cristo na Cruz ao Pai em sufrágio daquela alma que padece no purgatório. Uma Santa Missa para uma alma do purgatório é tudo. Aliviam-nas e diminuem-se os dias de padecimento de forma extraordinária. No entanto, quando somente se coloca a intenção numa Celebração da Palavra, o que acontece? Reza-se. E a oração é bem vida. Mas não tem o mesmo efeito da Santa Missa. Na Celebração da Palavra não se está oferecendo nada. É só a reunião de fiéis ouvindo a Palavra de Deus e que no fim se Comunga. Não tem o Sacrifício. Cristo não está sendo aniquilado no Altar da Santa Missa. Não sei nem com o que comparar. Mas comprar o efeito da Celebração da Palavra com a Missa, seria como comparar um pedacinho de grama com toda a Amazônia. Sei que a comparação foi pobre, mas mais pobre ainda é quem não dá o devido valor à Santa Missa.

E queria dizer que não avisar para os familiares que não terá Missa naquele dia, é algo muito desonesto. É desonesto com a família que, por causa do desconhecimento da causa, leva gato por lebre. E é desonesto com a alma que, se tiver alcançado Misericórdia, está padecendo no purgatório. E para quem leu o mínimo sobre purgatório sabe que não tem nada que se compare com a Santa Missa para aliviar uma alma do purgatório. E essa desonestidade ocorre justamente durante a semana quando é mais comum que ocorra celebrações da Palavra. Será que quando alguém deixa a intenção na secretaria, e quem atende sabe que não terá Missa, tem zelo o suficiente de tentar ligar em outra Paróquia e pedir que se coloque essa intenção? Ou mesmo de avisar? Mas sei que na maioria a culpa é dos próprios familiares que, por estarem distantes da Igreja, e pela dor do momento, acabam indo apenas em cima da hora. E nem se dão conta.

O que me motivou a escrever esse post foi justamente essa questão de Missa de 7º dia. Temos que rezar pelas almas do purgatório. E no mais, para finalizar, quero dizer que só entenderemos verdadeiramente o valor da Santa Missa quando nós, pela Misericórdia de Deus, estivermos no purgatório padecendo. E se quando você morrer estiver precisando de Missas e o que vem são só as intenções da Celebração da Palavra? Pense nisso.

E abaixo deixo um video do Padre Paulo Ricardo falando sobre a questão de se se cumpre o preceito dominical participando apenas da Celebração da Palavra.


Salve Maria Imaculada!




Assistam este filme que mostra o que acontece na Santa Missa (inclusive a graça que se obtém para as almas do purgatório)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Série: Teresa de Jesus (Santa Teresa D'Ávila) 8 Capítulos

Salve Maria Imaculada!
Esta série é fantástica! Retrata muito bem a vida de Santa Teresa. Assistam todos a esta série de 8 capítulos e deixe-se mergulhar na vida e na espiritualidade de Teresa de Jesus. Que o bom Deus, pela intercessão de Nossa Senhora e de Santa Teresa, possa nos dar a coragem de trabalhar para o Reino dEle assim como Teresa.















segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Qual a diferença entre a tentação, infestação e a possessão demoníaca?


Salve Maria Imaculada!
É comum a gente encontrar pessoas com a dúvida do que é possessão e infestação. Muitos querem saber qual é a diferença. Bom, por isso estou postando logo abaixo uma parte do livro "ANJOS E DEMÔNIOS A LUTA CONTRA O PODER DAS TREVAS" dos escritores Gustavo Antônio Solímeo e Luiz Sérgio Solímeo. É um livro muito bom. Indico a leitura.

No mais, já antecipo que os remédios para se lutar contra o mal é estar na vida da graça. Ou seja, confissão frequente (como é sempre dito: no exorcismo se expulsa o demônio; na confissão, além disse, se perdoa os pecados); comunhão frequente; rezar o Rosário. Se você estiver em algum lugar, um momento de oração, enfim, e uma pessoa "manifestar" ou mesmo estiver alguém possesso, lembre-se que você não pode fazer um exorcismo usando o ritual. Porém, você pode e deve rezar o Rosário. O Papa Adriano VI dizia que o Rosário é o flagelo dos demônios. Portanto, reze o Rosário pela pessoa e faça uso dos sacramentais: água benta (ou exorcizada) sal exorcizado, medalhas bentas (especialmente a medalha milagrosa de Nossa Senhora das Graças), o próprio Rosário, enfim, sempre ajuda na luta contra o inferno.

Segue a parte III do livro citado acima:

*** 

III - AÇÃO ORDINÁRIA E EXTRAORDINÁRIA DO DEMÔNIO

DEUS GOVERNA O MUNDO, respeitando sua ordem e suas leis; isto é, a normalidade, a simplicidade, o usual das coisas; tudo aquilo que sai desta linha e que parece maravilhoso, prodigioso, milagroso é excepcional, muito raro. Deus nos criou livres e espera de nós um livre consentimento à fé, sem que nisto sejamos influenciados por uma manifestação habitual do preternatural e do sobrenatural. Entretanto, para provar-nos, para que mereçamos a bem-aventurança eterna, como também, muitas vezes, para castigo nosso, permite Deus que o demônio nos atormente. A inclinação para o mal nos provém de três causas: de nossa natureza, ferida pelo pecado original; do mundo e do demônio. Entretanto Satanás desperta em nós, continuamente, a tríplice concupiscência com insistentes tentações de soberba e orgulho, de luxúria, de avidez em todos os níveis. Essa é a ação ordinária, comum, corrente do demônio — ou seja, a tentação. Além dela, pode o Maligno exercer uma ação extraordinária. A ação ou atividade demoníaca extraordinária pode ser assim qualificada por duas razões: em primeiro lugar, pelo seu caráter surpreendente, sensacional, espetacular; em segundo, pela sua relativa raridade (se comparada com a ação ordinária). Estamos nos referindo à infestação e à possessão diabólica. Trataremos em primeiro lugar da tentação; a seguir, das duas formas de infestação - a local e a pessoal; no capítulo seguinte, da possessão.

A tentação

“Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação. Porque depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus promete aos que o amam”. (Tiag 1,12)
A AÇÃO MAIS COMUM e constante do demônio, em relação ao homem, é a tentação. Por esse seu aspecto comum e também por ser a mais freqüente, pode-se chamá-la de ação ordinária do demônio.

Natureza da tentação

Em seu sentido etimológico, tentar alguém significa pô-lo à prova para que se conheçam suas disposições ou qualidades.

Tentação probatória e tentação enganadora ou sedutora

Santo Agostinho estabeleceu uma distinção, que se tomou clássica, entre a tentação probatória (tentatio pro- bationis) e a tentação enganadora ou sedutora (tentatio decepcionis vel seducionis).

A tentação probatória não visa levar ao pecado, e sim tornar patente a virtude de alguém ou fortalecê-la por meio da provação. Nesse sentido é que se pode falar de tentação de Deus, como, por exemplo, as provações que o Criador, servindo-se do demônio, enviou a Jó para provar sua fidelidade (cf. Jó 14, 1 ss).

Pode-se falar também de tentar a Deus quando se pretende pôr Deus à prova, exigindo dele um milagre ou uma ação extraordinária, com o fim de satisfazer nossa curiosidade, nossos caprichos, ou livrar-nos das conseqüências de nossas irreflexões ou imprudências. “Tentar a Deus — escreve D. Duarte Leopoldo e Silva - é expor- se ao perigo, a grandes tentações, sem necessidade, e depois pedir um milagre para não sucumbir. Deus protege no perigo, mas nem por isso devemos expor-nos temerariamente, porque, diz o Espírito Santo, quem ama o perigo nele perecerá” . (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, Concordancia dos Sanctos Evangelhos, Escola Typographica Salesiana, São Paulo, I edição, 1903.)

A tentação enganadora ou sedutora visa levar o homem à ruína espiritual; ela propõe-lhe um mal sob a aparência de um bem, procurando arrastá-lo ao desejo desse mal, isto é, ao pecado. Pode, então, ser definida como uma incitação ao pecado. Consiste em um estímulo, uma solicitação da vontade para o mal.

Quando procede de nós mesmos (tentação interna), pode ser indicada mais bem como inclinação, arrebata- mento, estímulo; se provém de outros inclusive do demônio podemos referir-nos a ela como convite, solicitação, incitação.

Causas naturais da tentação: o mundo e a carne

Nem todas as tentações que o homem padece provém do demônio; também o mundo e a carne têm nelas uma grande parte: “Nem todos os pecados são cometidos por instigação do demônio, mas alguns são cometidos pela livre vontade e corrupção da carne” - ensina São Tomás. (Suma Teológica, 1,q.114,a.3.)

A raiz mesma da tentação está na própria natureza humana, livre porém demasiado frágil, sobretudo depois que decaiu de sua integridade, em conseqüência do pecado original. “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e o alicia” - escreve o Apóstolo São Tiago (Tiago 1, 14), que repete a mesma idéia pouco à frente: “De onde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências que combatem em vossos membros?” (Tiago 4, 1).

São Paulo descreve em termos dramáticos essa terrível realidade: “Sinto imperar em mim unia lei: querendo fazer o bem, eis que o mal se apresenta a mim. Segundo o homem interior, acho satisfação na lei de Deus; mas em meus membros experimento outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me encadeia à lei do pecado que reina em meus membros” (Rom 7, 21-24)*

*“São Paulo descreve a luta que se trava no interior do homem entre a carne e o e espírito. O homem reconhece a justiça e a bondade da lei, mas a concupiscência excita-o fortemente a desobedecer-lhe” (Pe. MA- TOS SOARES). A carne, aqui, significa a natureza humana decaída em consequência do pecado original, que a tornou desregrada. De si, a carne ou seja, a natureza humana é boa, pois criada por Deus.

Essa a lei da carne

Também o mundo procura arrastar-nos ao pecado, pois “está sob o jugo do maligno” (1 Jo 5, 19), e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” (Tiago 4, 4). Se rompermos com o mundo ele nos perseguirá, adverte o Salvador, pois não somos do mundo ( Jo 15, 19). Por isso, Jesus disse expressamente que não rezava pelo mundo (Jo 17, 9).

Um homem pode ser tentador de outro homem, segundo o espírito do mundo. Foi o que fez São Pedro, procurando desviar o Senhor do caminho da Cruz: “A partir daquele momento, começou Jesus a revelar a seus discípulos que era necessário que fosse a Jerusalém, padecesse muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, e fosse condenado à morte, e ao terceiro dia ressuscitasse. Pedro, tomando-o à parte, começou a admoestá-lo, dizendo: ´Deus te livre, Senhor! Isto não te pode acontecer!´Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: ‘Retira-te de mim, Satanás! Pois és para mim obstáculo (isto é, tentação); os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!’ “ (Mt 16, 21-23).

Somos, pois, tentados pela nossa própria fragilidade, pelo nosso temperamento, nossa índole, formação, ambiente, familiares, amigos, situações e ocasiões; em uma palavra: pela carne e pelo mundo.

A tentação demoníaca

Porém, conforme ensina o Apóstolo, “não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os domina- dores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares... “(Ef 6, 10-11).

É fora de dúvida que muitíssimas tentações são obra direta do demônio, cujo oficio próprio — diz São Tomás — é tentar. ( Suma Teológica, 1,q. 114,a .2. )

A maior parte da atividade demoníaca se concretiza na tentação. Por isso o demônio, no Evangelho, é chamado tentador (cf. Mt 4, 3).

As demais causas da tentação — o mundo e a carne — podem atuar dependentemente umas das outras; entretanto, é comum que, nas tentações, a atração do mundo se una à revolta da sensualidade, e a ambas se some a ação aliciante do demônio.

De tal modo que, embora os teólogos aceitem no plano teórico a possibilidade de a tentação poder ter uma causa apenas natural o mundo ou a carne sem entrar necessariamente a ação do demônio, no plano prático, em geral, admitem que o Maligno, sempre à espreita, se aproveita de todas as circunstâncias para cavalgar a tentação e aumentar a sua intensidade ou malícia.

De onde a advertência de São Paulo: “Se sentirdes raiva, seja sem pecar: não se ponha o sol sobre vossa ira, para não dardes oportunidade ao demônio” (Ef 4, 26-27).

O homem diante da tentação
A tentação não é pecado

A tentação, de si mesma, obviamente não é pecado. Pois o próprio salvador permitiu ser tentado pelo demônio (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Como dissemos, o demônio não pode agir diretamente sobre a inteligência ou a vontade humanas e por isso procura influenciá-las por meios indiretos, em seu escopo de fazer-nos pecar. Mesmo podendo resistir ao tentador, o homem freqüentemente se deixa seduzir.

Para nos tentar, o demônio pode excitar a imaginação de modo a formar nela imagens e representações lúbricas ou perturbadoras; interferir em movimentos corporais que favoreçam os maus atos ou maus pensamentos, intensificar as paixões, procurar enredar-nos em sofismas, em erros, etc.

Entretanto, o homem não é culpado das tentações que sofre, a não ser quando elas são conseqüência de imprudências, permitidas ou procuradas voluntariamente, por exemplo, com olhares indevidos, frequência a lugares perigosos, más companhias, etc. Do contrário, ele só será culpado nos casos em que der um consentimento pleno e deliberado ás solicitações das tentações.*

*“Três coisas devemos distinguir na tentação: a sugestão, a deleitação e o consentimento. A sugestão não é um pecado, porque não depende da nossa vontade, A simples deleitação, quando involuntária, também não é pecado. Só o consentimento é sempre criminoso, porque depende exclusivamente de nós o aceitar ou não a su- gestão do pecado” (Con. Duarte LEOPOLDO E SILVA, op. cit., p. 34, n. 5).

Por mais intensa que seja uma tentação, se o homem lutou contra ela o tempo todo, não cometeu a menor falta; pelo contrário adquiriu méritos para sua santificação, segundo escreve São Tiago Apóstolo: “Bem-aventurado o homem que sofre (com paciência) a tentação, porque, depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam” (Tiag 1, 12).

Necessidade da vigilância e da oração

Devemos estar sempre alertas para enfrentar as provocações, como nos recomendou Nosso Senhor na hora de sua Paixão: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41). O mesmo aconselha São Pedro: “Sede sóbrios e vigiai, porque o demônio, vosso adversário, anda ao redor como um leão que ruge, buscando a quem devorar” (1 Pedro 5,8).

Vigiar, porém, não basta. É preciso resistir ao demônio: “Resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” (Tiago 4, 7) — nos assegura São Tiago. “Resisti-lhe [ao demônio] fortes na fé” — manda São Pedro (1 Pedro 5,9).

E São Paulo exorta: “Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do demônio. ... tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de ter vencido tudo. Estai, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade, e vestindo a couraça da justiça ... tomai o escudo da fé com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno, tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito ( que é a palavra de Deus)” (Ef 6, 11-17).

Deus não permite que sejamos tentados além de nossas forças

Devemos, entretanto, ter sempre presente esta consoladora verdade: é certo que Deus não permite sejamos tentados além de nossas forças. Este é o ensinamento de São Paulo: “Nenhuma tentação vos sobreveio que superasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças: mas, com a tentação, vos dará também o meio de sair dela e a força para que suportá-la” (1 Cor 10,13).

A infestação

Não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares.. “ (Ef 6, 10-11)

A TERMINOLOGIA a respeito da ação extraordinária do demônio sobre os homens, as coisas e os locais, não é uniforme: alguns autores falam em obsessão, para designar essa atuação demônio, quer se trate de sua simples presença local, quer de atuação sobre o homem, mas sem possuí-lo, quer da possessão. Outros criam termos especiais como circumissessão, para designar a ação demoníaca externa ao homem.

Adotamos aqui a terminologia utilizada por Mons. Corrado Balducci, por parecer-nos mais simples e direta: infestação local, infestação pessoal e possessão diabólica. (Cf Mons. C. BALDIJCcI, Gli indemoniati, p. 3; El diablo, pp. 156-158.) Trataremos em primeiro lugar das duas formas de infestação — a local e a pessoal; no capítulo seguinte, da possessão.

Infestação local

A infestação local consiste em uma atividade per- turbara que o demônio exerce diretamente sobre a natureza inanimada (reino mineral, elementos atmosféricos, etc.) e animada inferior (reino vegetal e reino animal), e também sobre lugares, procurando desse modo atingir indiretamente o homem, sempre em modo maléfico.

Com efeito, todas as criaturas, mesmo as irracionais, por maldição do pecado, ficaram sob o poder do demônio (cf. Rom 8, 21ss). Assim, os lugares e as coisas, do mesmo modo que as pessoas, estão sujeitas à infestação demoníaca. E preciso não esquecer a atuação dos demônios dos ares, a respeito das quais nos adverte o Apóstolo: “Não temos que lutar somente contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares...” (Ef 6, 10-11). Entram nessa categoria as casas e lugares infestados: objetos que voam ou se deslocam de lugar, sons estranhos ou perturbadores (passos, pedradas nas vidraças ou no telhado, uivos, gritos, gargalhadas); impressão de presenças invisíveis, sensação de perigos inexistentes, etc.; distúrbios visíveis, estranhos e repentinos que se verificam no mundo vegetal e no mundo animal (árvores ou plantações que secam repentinamente, doenças desconhecidas nos animais, pragas, etc.).

Certos fenômenos ou calamidades de aparência e estruturas naturais (tempestades, terremotos e outros cataclismos, incêndios, desastres, etc.) podem ter igual- mente o demônio como autor, senão único direto (como na possessão), ao menos parcial e dirigente. Por exemplo, o raio que caiu do céu e consumiu os pastores e as ovelhas de Jó, do mesmo modo que o vento do deserto que fez cair a casa dos filhos do Patriarca, esmagando-os sob as ruínas, foram suscitados por Satanás (Jó 2, 16-19). Nesse caso, podem ser incluídos essas manifestações demoníacas extraordinárias.

Muitas vezes, tais manifestações ocorrem em concomitância com casos de infestação pessoal ou de possessão diabólica.

Infestação pessoal

A infestação pessoal é uma perturbação que o demônio exerce, já não mais sobre o mundo material e as criaturas irracionais, mas sobre uma pessoa, diretamente, sem contudo impedir-lhe o uso da inteligência e da livre vontade. Apesar de ser excepcional, é talvez o mais frequente dos três tipos de atividade maléfica extraordinária - isto é, infestação local, infestação pessoal, possessão.

Como a infestação local, a pessoal também com- porta graus de intensidade, e diversa modalidade.

A infestação pessoal pode ser externa ou física e interna ou psicológica, conforme se exerça sobre os sen- tidos externos ou internos e sobre as paixões do homem. Com frequência, a infestação é simultaneamente externa e interna.

Na infestação externa ou física, demônio age sobre nossos sentidos externos: a vista, provocando aparições sedutoras ou, contrário, apavorantes; a audição, fazendo ouvir rumores, palavras ou canções obscenas, blasfêmias, convites, agrados ou ameaças; o tacto, com sensações provocantes, abraços, movimentos carnais; então dores, doenças, etc.

Mas o demônio pode atuar também sobre os senti- dos internos (fantasia e memória) e sobre as paixões.

A infestação interna ou psicológica consiste em sugestões violentas e tenazes: ideias fixas, imagens ex- pressivas e absorventes, movimentos profundos de emotividade e de paixão - por exemplo, desgostos, amargura, ressentimentos, ódio, angústias, desespero; ou, ao contrário, inclinação para algum objeto ilícito, ou inclinação, de si lícita, mas desregrada quanto ao modo e à intensidade.

Comenta o Pe. Tanquerey: “A pessoa se sente, em- bora com desgosto, invadida por fantasias importunas, tediosas, que persistem não obstante os esforços vigorosos para afastá-las; ou então por frêmitos de ira, angústia, desespero, ímpetos instintivos de antipatia; ou pelo contrário, por perigosas ternuras sem razão alguma que as justifiquem” . (Adolphe TANQUEREY, Precis de Théotogie Ascétique ei Mystique. p. 958.)

Os acessos de melancolia e os transportes de furor que afligiam Saúl, por obra de um demônio e por permissão divina ( cf. 1 Reis 16, 14-23), são característicos da infestação pessoal interna, infestação psicológica. Diferentemente do possesso, o infestado guarda a disposição de seus atos exteriores, embora em muitos casos tenha sua liberdade diminuída. Ele conserva o poder de reagir contra as sugestões do interior ( por exemplo, sugestões de blasfêmias), de julgar sobre o valor moral destas sugestões, achando-as abomináveis. Uma das modalidades de infestação pessoal, talvez das mais freqüentes são as doenças, muitas vezes desconhecidas e incuráveis, que chegam a levar à morte, se Deus o permitir. É o que, aliás, lemos no livro de Já: “Disse, pois, o Senhor a Satanás: Eis que ele (Jó) está na tua mão; conserva, porém, a sua vida” (Jó 2, 6).

As escrituras apresentam vários casos de tais enfermidades de origem de diabólica. Exemplo clássico, é a lepra que cobre de chagas o justo Jó, da planta dos pés até o alto da cabeça (Jó 2, 7-8).

Seriam igualmente vítimas de infestação diabólica a mulher encurvada, atormentada pelo demônio havia dezoito anos, de tal sorte que não se podia endireitar, e que foi curada por Nosso Senhor (Luc 13, 11); o menino epilético (Mt 17, 14; Mc 9, 17; Luc 9, 38); o mudo (Mt 9,32); e o cego mudo (Mt 12, 22).

Mons. Balduecci se refere a doenças de origem demoníaca, por efeito de malefícios, observando que nestes casos os distúrbios são com frequência de ordem física, sendo dificilmente diagnosticados pelos médicos; outras vezes se trata de inconvenientes que atacam a vida psíquica, a própria personalidade do indivíduo, tomando-o difícil, raivoso e até incapaz de atuar no âmbito de sua vida familiar e social.(Cf. Mons. C.BALDUCCI, El diablo, p. 184.)

Convém precisar que muitas das manifestações acima descritas, embora próprias às infestações locais ou pessoais, não são exclusivas delas e nem sempre são de origem demoníaca; várias anomalias de ordem psíquica (ilusões, alucinações, delírios) podem se externar pelos mesmos fenômenos; um cuidadoso exame do indivíduo e das circunstâncias que acompanham os fatos poderá revelar a origem natural patológica ou demoníaca dos distúrbios.

Vítimas prediletas da infestação

Se bem que qualquer pessoa possa ser vítima desse tipo de tormento diabólico, Mons. Balducci indica três categorias de pessoas que estariam mais sujeitas a ele: os santos, os exorcistas e demonólogos, e os maleficiados (vítimas de malefício).

Os santos, por causa do ódio que o demônio tem daqueles que de modo especial amam a Deus e procuram a perfeição; isto, do lado da intenção do demônio; do lado da permissão divina, esta é dada como provação especial a almas muito eleitas. Vários santos a experimentaram. Entre os antigos, basta lembrar Santo Antão; do mesmo modo Santa Catarina de Siena (1347-1380); São Francisco Xavier (1506-1552); Santa Teresa de Jesus (1515-1582); Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607); São João Batista Vianney, o Cura d’Ars (1786-1859) São João Bosco (1815-1888); Santa Gemma Galgani (1878-1903).*

Os exorcistas e demonólogos: a razão é tão óbvia que quase não é preciso dá-la; os primeiros, com seu ministério, fazem diminuir a presença do demônio no mundo e libertam suas vítimas; os segundos, com seus estudos, esclarecem os fiéis com relação à existência e atividade demoníacas.

Os maleficiados (vítimas de malefício), por permis- são de Deus, para seu castigo, ou provação, ou para manifestar o poder divino. ( Cf. Mons. C. BALDUCCI, El diablo, p. 179.)

Esta Santa leiga, grande mística, recebeu os estigmas da Paixão, tinha frequentes visões de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, e um comércio quase contínuo com seu Anjo da Guarda. Foi muito atormentada pelo demônio que a espancava com uma vara durante horas e horas, às vezes a noite inteira, causando-lhe profundas esquimoses no corpo, que duravam vários dias, até que Nosso Senhor as curasse. Perseguia-a por toda a parte, em casa, na rua, na igreja, com aparições, assumindo o aspecto de um cachorro, de um gato, de um macaco, de pessoas conhecidas, ou de homens ferozes e espantosos. Várias vezes um desses homens horríveis a jogou na lama quando saia de casa para ir comungar. O demônio lhe aparecia também sob a figura de seu confessor, Mons. Volpi e outras debaixo da aparência do Anjo da Guarda, chegando a confundi-la; de certa feita o Maligno assumiu a figura de Jesus flagelado, com o coração aberto e todo ensanguentado, para pedir-lhe maiores penitências, com a dupla finalidade de fazer deteriorar sua já delicada saúde e incitá-la a desobedecer o confessor que as havia proibido ( Mons. C. BALDUCCI, El diablo PP. 179-181).

A possessão

E pela tarde apresentaram-Lhe muitos possessos do demônio”. (Mt 8, 16)

A POSSESSÃO é a mais espetacular das manifestações diabólicas e a que mais impressiona as imaginações; a tal ponto, que deixa na penumbra o trabalho constante do demônio que, por meio da tentação, procura seduzir os homens ao pecado.

Realidade da possessão diabólica

No que se refere à possessão diabólica, há duas posições erradas que é preciso evitar: a primeira, consiste em acreditar com facilidade que uma pessoa está possessa, sem maior exame, pela impressão causada por sintomas que podem bem corresponder a outros estados, não sendo de si suficientes para caracterizar a possessão; a segunda posição está em negar que hoje ocorram casos de possessão; chega mesmo a negar que alguma vez se tenham dado. Esta posição extremada se choca com uma verdade claramente ensinada pela Sagrada Escritura, pela Tradição e pela prática da Igreja.

Os racionalistas pretendem que os casos de possessão diabólica relatados na Escritura não passam de casos patológicos — mania, loucura, histeria e epilepsia. Dizem que Jesus não pretendia que esses infelizes enfermos, chamados endemoniados, estivessem realmente possessos, mas tratava-os de acordo com as convicções dos seus contemporâneos, os quais acreditavam na ação demoníaca.

Nada mais falso, e os Evangelistas distinguem bem entre a doença e a possessão. Assim, São Marcos escreve: “E de tarde, sendo já posto o sol, traziam-lhe (a Jesus) todos os que estavam doentes e os possessos do demônio E curou muitos que se achavam oprimidos com varias doenças. e expeliu muitos demônios” (Mc 1, 32-34).

E em São Mateus está escrito: “E pela tarde apre- sentaram-lhe muitos possessos do demônio, e ele com a (sua) palavra expelia os espíritos maus, e curou todos os enfermos” (Mt 8, 16).

Do mesmo modo São Lucas: “E quando foi sol posto, todos os que tinham enfermos de diversas moléstias, traziam-lhos. E ele impondo as mãos sobre cada um, sarava-os. E de muitos saíam demônios gritando” (Lc 4,40-41).

É evidente nestas passagens que os Evangelistas se referem à cura de doentes e à expulsão de demônios como dois casos diferentes.

De resto, o próprio Salvador afirma que expulsava os demônios dos possessos. Por exemplo, aos judeus incrédulos disse Jesus: “Se eu, porém lanço fora os demônios pela virtude do Espírito de Deus, é chegado a vós o reino de Deus” (Mt 12, 28). “Se eu, pelo dedo de Deus lanço fora os demônios, certamente chegou a vós reino de Deus”(Lc 11,20).

E Ele mesmo distingue bem os casos de doença dos de possessão, ao dizer: “Eis que eu expulso os demônios e opero curas” (Lc 13, 32).

A Liturgia e a prática da Igreja, com a instituição dos exorcismos, bem como o ensinamento dos teólogos, indicam que Ela crê na possessão diabólica. Ao mesmo tempo, estabelecendo que os exorcismos sobre possessos não sejam feitos senão depois de maduro exame e mediante especial autorização, a Igreja indica que não se deve crer levianamente nos casos de possessão.

Em resumo, que se tenham dado alguns casos, pelo menos de verdadeira possessão diabólica, como os relatados nos Evangelhos, é verdade de fé; que depois se tenham dado outros, é doutrina comum dos teólogos, que não pode ser negada sem temeridade.

Natureza da possessão

A possessão consiste em um domínio que o demônio exerce diretamente sobre o corpo e indiretamente sobre a alma de uma pessoa. Esta se converte em um instrumento cego, dócil, fatalmente obediente ao poder perverso e despótico do demônio.

O indivíduo em tal estado é chamado justamente possesso, endemoniado, enquanto instrumento, vitima do poder demoníaco, ou energúmeno, porque mostra uma agitação insólita.

Características

A possessão se caracteriza por dois elementos: a) presença do demônio no corpo do homem; b) exercício de um poder por parte demônio sobre o mesmo.

Quanto a presença demoníaca, ela não significa uma presença física, como anjo (decaído), o demônio é puro espírito; sua presença se dá pelo contato operativo, isto é, o demônio está onde atua desse modo, o demônio pode desenvolver sua atividade por toda a parte, tanto fora como dentro dos corpos humanos. Sendo assim, um indivíduo pode estar possuído por vários demônios (os quais operam simultaneamente sobre ele, embora sob aspectos diversos), como um só demônio pode possuir várias pessoas (atuando sucessivamente sobre cada uma delas).

O modo como se opera a possessão é explicado por São Tomás de Aquino:

“Os anjos bons e os maus têm o poder, em virtude de sua natureza, de modificar nossos corpos, como qualquer outro objeto material. E como eles estão presentes num lugar na medida em que operam nele, assim eles penetram em nossos corpos. Do mesmo modo, ainda, eles impressionam as faculdades ligadas a nossos órgãos: às modificações dos órgãos respondem as modificações das faculdades. Mas a impressão não chega até à vontade, porque a vontade, nem seu exercício, nem em seu objeto, depende de um órgão corporal; ela recebe seu objeto da inteligência, na medida em que esta desentranha, do que ela percebe, a noção de bondade do ser”. (In 2dum Sent., Dist. VIII, q. un. a. 5, sol. apud L. ROURE, Possession Diabolique, col.)

Em outro lugar o Santo Doutor explica que o diabo não pode penetrar diretamente na alma do homem, pois isto somente a Santíssima Trindade pode fazer. (Suma Teológica, 3,q. 8,a.8) Isto quer dizer que, na possessão, embora o demônio domine o corpo, sobretudo o sistema nervoso, e possa impedir o uso das potências da alma, ele não pode penetrar nela e obrigar sua vítima a cometer um pecado, ou aceitar as doutrinas diabólicas.

O possesso não é moralmente responsável por seus atos, por piores que sejam, uma vez que não tem plena consciência deles, nem existe colaboração da vontade.

Efeitos da ação do demônio sobre o possesso

A presença operante do demônio no endemoniado não é contínua, mas se manifesta por períodos de crise. Não falta ao demônio poder nem vontade de atormentar ininterruptamente sua vítima, tal o ódio ao homem; Deus é que não o permite, pois a pessoa não resistiria.

A influência do demônio sobre os possessos não é simplesmente indireta ou moral, como, por exemplo, nas tentações, mesmo as mais fortes; ela é uma ação direta e física, exercida pelos espírito das trevas sobre os órgãos corporais do infeliz submetido ao seu império. De onde resulta para este último um estado doentio, estranho, que sai das leis ordinárias das afecções mórbidas, embora frequentemente acompanhado de fenômenos de ordem puramente natural, que o demônio determina nele, simultaneamente com aqueles que ultrapassam a esfera própria aos agentes físicos. Esses fenômenos são habitualmente uma superexcitação geral e profunda de todo o sistema nervoso.

Outras vezes, ao contrário, o demônio comunica à sua vítima um crescimento extraordinário da força muscular. O infeliz entra em fúria a ponto de espumar de raiva, ranger os dentes, soltar gritos espantosos, precipitar-se na água ou no fogo. Ele se torna então perigoso para aqueles que se aproximam dele; destrói, como simples pedaço de palha, as cadeias de feno com as quais o querem prender; e, se ele não puder atingir os outros, volta conta si mesmo o seu furor, arranhando-se com as unhas, machucando-se com as pedras do caminho.

Essa ação perturbadora e nociva do demônio sobre os órgãos corporais expande-se sobre as faculdades mistas, como a imaginação, a memória, a sensibilidade. Estende-se mesmo mais longe e mais alto no ser humano, porque ela tem sua repercussão até na inteligência. As operações intelectuais apresentam, às vezes, um tal caráter de incoerência, que os demoníacos parecem atingidos de alienação mental. Não é raro também ver-se produzir, no domínio do espírito, um fenômeno análogo àquele que se passa no seus órgãos. Assim como o demônio, em lugar de paralisar as energias corporais do demoníaco, aumenta seu poder, do mesmo modo, em vez de diminuir suas luzes naturais, ele comunica à sua inteligência conhecimentos que ultrapassam de muito seu poder.

Possessão e infestação: fenômenos da mesma espécie

A infestação pessoal (ou obsessão) e a possessão constituem fenômenos da mesma espécie, variando apenas em grau, e são classificadas pelos teólogos como ações extraordinárias e diretas do demônio, enquanto a tentação é indicada como ordinária e indireta.

Observa o Cardeal Lepicier que a diferença entre a infestação pessoal e a possessão não é um diferença de espécie, mas somente de grau, visto que estas formas diferem mais ou menos, conforme for maior ou menor o grau do poder exercido pelo demônio sobre o corpo do indivíduo a quem ele resolveu atormentar. Os fenômenos de infestação pessoal não são, por vezes, menos graves do que os de possessão. De fato, o Ritual Romano não estabelece diferença alguma entre eles, e as línguas latina e italiana têm apenas uma palavra clássica para designar ambas as formas, isto é, obsessão diabólica.(Cf. Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, p. 277.)

É verdade — explica o Pe. Roure — que a possessão não penetra até o íntimo da alma; consequentemente ela não pode ditar, impor ao possesso um ato pessoal de inteligência ou de vontade; mas a ação diabólica chega a neutralizar, a impedir o exercício da inteligência e da vontade, de modo que o possesso torna-se incapaz de conhecer, de julgar e de querer tudo o que se passa e se agita nele. Na infestação tal não se dá; a vítima conserva o domínio de suas faculdades superiores (a inteligência e a vontade), e pode mesmo servir-se delas para enfrentar os assaltos do Maligno. Dessa forma acontece que a efervescência diabólica pode deixar o fundo da alma em paz (Cf. L. ROURE, Possession Diabolique, cols. 2645-2646.)

Causas da possessão
Punição, provação...

A permissão dada por Deus ao demônio de, na possessão apoderar-se assim dos órgãos corporais e das faculdades espirituais de uma criatura humana, é, às vezes, punição de certos pecados graves cometidos pelos possessos, em particular os pecados da carne. Entretanto não é sempre assim. Um endemoniado não é necessariamente culpado. Algumas vezes, Deus permite esse estado para ressaltar sua glória pela intervenção ostensiva de seu poder absoluto (cf. Jo 9, 1-8), ou para provar os possessos.

São Boaventura explica que Deus permite a possessão “seja em vista de manifestar sua glória, obrigando o demônio pela boca possesso a confessar, por exemplo, a divindade de Cristo, seja para punição do pecado, seja para nossa instrução. Mas, por qual dessas causas precisamente ele deixa o demônio possuir um homem, é o que escapa à sagacidade humana: os julgamentos de Deus são escondidos aos homens. O que é certo, é que eles são sempre justos” (In 2dum Sent. dist. VIII. part II. q. 1 art úni- co apud L. ROURE, Possession Diabolique., col. 2644.)

O caráter espetacular da possessão acaba por apresentar um efeito apologético e ascético benéfico, pois torna patente e quase visível a existência do Espírito das trevas.

Esta é uma das razões pelas quais Deus permite a possessão diabólica, pois obriga o Maligno a agir como que a descoberto, dando mostras públicas da sua maldade, do seu ódio contra o homem e a criação.

Práticas supersticiosas, espiritismo, macumba

Não devemos esquecer, entre as causas das infestações e da possessão, as práticas supersticiosas, o recurso a magos, pais-de-santo, cartomantes, adivinhos, etc.

“O demônio, quando um homem colabora com ele em práticas supersticiosas, facilmente exerce sobre esse indivíduo a mais cruel e implacável tirania” — observa o Cardeal Lepicier. Ele chama a atenção para as práticas espíritas: “Não pode haver dúvida de que atuar como médium é o mesmo que expor-se aos perigos da obsessão diabólica ... Recorrer a um médium é, pois, equivalente a cooperar na obsessão de uma pessoa”. (Card. A. LEPICIER, O Mundo Invisível, pp. 222-223.)

Uma das causas muito comuns da ação extraordinária do demônio sobre pessoas é o malefício, a respeito do qual falaremos adiante. O Pe. Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma, afirma que os casos mais difíceis de infestação e de possessão diabólica que ele tem encontrado são os resultantes de macumbas realizadas no Brasil e na África. (Cf. G. AMORTH, Un esocista racconta, pp. 116 e 157.)

Existem ainda casos de possessão voluntária, em que a pessoa que recorreu ao diabo e fez um pacto com ele pode agir como um instrumento do Maligno para levar avante os desígnios dele. A figura típica do médium de Satanás, foi Hitler, segundo julga o teólogo e demonólogo beneditino austríaco Dom Aloïs Mager.(“Não há nenhuma outra definição mais breve, mais precisa, mais adaptada à natureza de Hitler que esta tão absolutamente expressiva: Medium de Satã” (D. Aloïs MAGER O.S.B., Satan de nos jours, p. 639).) Poderiam ser mencionadas igualmente as figuras sinistras de Lenin, Stalin, e tantos outros...

Frequência da possessão

Após o estabelecimento da Igreja, o número dos demoníacos diminuiu, de muito, nas nações tomadas cristãs. E que, pelo Batismo e demais Sacramentos, os fiéis são preservados desses ataques sensíveis do demônio. Este perdeu seu império, mesmo sobre aqueles que, embora batizados, vivem de maneira pouco conforme com à Fé de seu Batismo. Membros da Igreja, embora membros mortos, eles encontram nessa união, entretanto imperfeita, ao Corpo Místico de Cristo, um socorro em geral suficiente para que o demônio não possa apoderar-se deles, como faria, se se tratasse de pagãos. “Entretanto — observa o Pe. Ortolan — não so- mente nas regiões que não receberam o Evangelho, mas também naqueles em que a Igreja está estabelecida, encontram-se ainda demoníacos. Seu número aumenta na proporção do grau de apostasia das nações que, outrora católicas, abandonam pouco a pouco a Fé, e retornam ao paganismo teórico e prático” (T. ORTOLAN, Demoniaque, col.410.)

Para avaliarmos corretamente a presença e atua- ção do demônio no mundo atual é preciso considerar que o estado de apostasia a que se referia o Pe. Ortolan há mais de quarenta anos — chegou em nossos dias a um grau inimaginável. E que, mais ainda do que os casos de possessão, o número dos infestados é sem conta.

Possessão diabólica: o diagnóstico

Para estabelecer a realidade de uma possessão, um único método é válido: provar a presença dos sinais indicados no Ritual Romano”. (Dom Louis de Cooman, Bispo-missionário e exorcista)

Estados patológicos e possessão diabólica
Problema complexo

Um dos problemas mais complexos colocados pela ação diabólica extraordinária sobre o homem é o seu diagnóstico. A questão consiste em saber quando estamos realmente em presença de uma ação preternatural (isto é, provocada por anjos ou demônios) ou diante meras manifestações de morbidez, ou de outro gênero, por certo incomuns, mas que não escapam ao âmbito dos fenômenos naturais da alçada da Medicina e outras ciências.

Nem sempre é fácil distinguir entre as infestações e possessões demoníacas e certos fenômenos de natureza mórbida, pois é sabido que inúmeros distúrbios patológicos, especialmente de caráter neuro-psiquiátrico, provocam estados de extrema agitação, decuplicam as forças físicas, provocam fobias em relação às coisas sacras, etc. Em resumo, fazem o pobre doente parecer um possesso.

É o que faz notar o Cardeal Alexis Henri Marie Lé- picier, O.SM.:

Sabemos que em algumas pessoas a imaginação, estando fora do normal, pode ultrapassar os seus naturais limites e ser a origem de manifestações estranhas que, à primeira vista, apresentam uma certa afinidade com ocorrências preternaturais [isto é, produzidas por anjos ou demônios]. ... Todos nós sabemos quantas perturbações pode causar uma doença nervosa em certas criaturas, como, por exemplo, nas que sofrem de histeria. Há, de fato, nas ações destes indivíduos muitas coisas que causam admiração. ... Mas é principalmente nos períodos de paroxismo que a histeria está mais apta a exibir muitos e curiosos fenômenos, o principal dos quais é a alucinação.

“Toda gente vê, portanto, a necessidade imperiosa de estabelecer a distinção entre estes fenômenos e os que são devidos a causas preternaturais” (Card. A. LEPI- CIER, O Mundo invisível, p. 201.)

Outras vezes, são fenômenos da natureza, insuficientemente explicados pelos cientistas, ou simplesmente fora de alcance de pessoas sem formação especializada: luminosidades, movimentos de massas de ar, variações térmicas, etc., os quais podem parecer fenômenos maravilhosos provocados por ação diabólica.

Objetividade e rigor científico

Mons. F. X. Maquart — renomado estudioso da matéria - compara o diagnóstico do exorcista ao diagnóstico médico.

O exorcista deve proceder com a mesma objetividade, o mesmo rigor que o exame do médico, de modo a não deixar fora do exame nenhuma das manifestações apresentadas pelo comportamento do paciente, evitando com isso deixar-se levar pela impressão, que pode ser enganosa. Esse exame crítico tem por finalidade eliminar alguma possível explicação natural observável na presumida manifestação diabólica.

Mons. Maquart explica que um certo número de sintomas da possessão são comuns com os de algumas doenças como a psicastenia, a histeria, algumas formas de epilepsia, etc. Como fazer para discernir então entre um simples doente mental e um possesso pelo demônio? Entram em jogo os outros sinais da possessão, que não têm explicação natural: falar línguas estrangeiras não aprendidas, conhecer fatos à distância, revelar ciência ou força física muito em desproporção com a idade, etc. ( Cf. F. X. MAQUART. L´Exorciste devant les manifestations diaboliques, pp. 338-339.)

Essa posição exige, ao mesmo tempo, muita objetividade e bom senso, ao lado de muita fé. Pois, como é evidente, não se pode, sob pretexto de que o extranatural é uma exceção, negar em princípio toda a ação demoníaca, ou proceder de tal forma como se sempre se tivesse que encontrar, a qualquer preço, uma explicação natural.

Perigos de um diagnóstico errado

Um diagnóstico errado não é isento de perigos, tanto de ordem moral e espiritual, como até mesmo física.

Em primeiro lugar, a prática de exorcismos em simples doentes mentais, sem que estes, obviamente, experimentem qualquer melhora, pode conduzir ao descrédito em relação aos mesmos exorcismo e às coisas sagradas de modo geral. Pode ainda oferecer argumentos aos céticos, que se aproveitarão para tachar a prática dos exorcismos como puramente supersticiosa.

Além do mais, a prática dos exorcismos solenes representa para o exorcista um desgaste muito grande, o qual seria sem fruto em caso de erro de diagnóstico. Por fim, o exorcizar doentes mentais oferece o perigo de agravar seus males, seja pela grande tensão e esforço mental e até físico que o exorcismo comporta, seja pelo caráter impressionante deste.

É o que afirma Mons. Maquart, experimentado de- monólogo francês: “Não seria sem inconvenientes graves exorcizar, sob simples aparências de possessão, doentes mentais. Em vez de os curar, o exorcismo teria o risco de agravar seu mal”. (Mgr F. X. MAQUART, L ‘Exorciste devam les manjfestations diaboliques, p. 328.)

O mesmo assegura Dom Gustavo Waffelaert (Bispo de Bruges): “Há inconveniente real em exorcizar uma pessoa não possessa. Por ela, antes de tudo; pois o exorcismo, pela forte impressão que produz, pode afetar desfavoravelmente um sistema nervoso já perturbado e acabar de o arruinar; ele é também um poderoso meio de sugestão e arrisca desenvolver, num indivíduo fraco, hábitos mórbidos. Além do que, não se tem o direito de empregar, sem motivo grave, as orações sagradas do Ritual: é preciso que elas tenham um objeto. Dessa forma, a Igreja, para permitir o exorcismo, requer a prudência e um julgamento moralmente certo ou ao menos provável da possessão” . (Mgr G. 3. WAFFELAERT, Possession Dia- bolique. col. 55.)

Em muitos lugares — como nas dioceses de Roma e Veneza - os exorcistas trabalham sempre em estreita união com psiquiatras católicos, os quais os ajudam a distinguir meros doentes de eventuais possessos; por seu lado, esses profissionais, muitas vezes, recorrem aos serviços dos exorcistas, quando percebem em seus clientes sinais que ultrapassam os limites da Medicina.

Na realidade, certas manifestações, à primeira vis- ta patológicas, podem esconder a ação do Maligno. Por isso o médico católico não deve excluir sem mais a possibilidade dessa ação, conforme observa Mons. Catherinet: “O médico que quiser manter-se um homem completo, sobretudo se ele possuir as luzes da fé, não excluirá, a priori, a presença do demônio, podendo, em certos casos, suspeitar, por trás da doença, a presença e a ação de alguma força oculta (cujo estudo ele pedirá ao filósofo ou ao teólogo, os quais se guiam segundo seus próprios métodos). (Mgr F. M. CATHERJNET. Les Demoniaques dons l Évangile, pp. 324-32.)

Critérios seguros

A Igreja nunca negou essa dificuldade de diagnóstico da possessão; ao contrário, sempre foi muito cautelosa no pronunciar-se sobre os casos concretos, recomendando que na avaliação de cada um deles se examine com muito cuidado se o fenômeno pode ter uma origem natural. Só depois de diligente e acurado exame, e de descartadas todas as possibilidades de explicação natural, é que a Igreja autoriza a proceder aos exorcismos solenes sobre os possessos. Para garantir tal rigor de procedimento, a Igreja estabeleceu que esses exorcismos só podem ser praticados por sacerdotes devidamente autorizados pelo Ordinário do lugar para cada caso concreto; bispo não pode dar essa autorização senão a um padre de conhecida ciência, prudência, piedade e integridade de vida. (Cf. Código de Direita Canônico, cânon 1172 § § 1 e 2.)

Dom Louis de Cooman, antigo Vigário Apostólico no Vietnã ( ele próprio exorcista em um caso famoso de possessão coletiva, que será relatado adiante), dá o único critério que considera seguro para se determinar se há ou não possessão: “Para estabelecer a realidade de uma possessão, um único método é válido: provar a presença dos sinais clássicos indicados pela Igreja no Ritual Roma- no” (Mgr Louis de COOMAN, Le Diable au Couvent, p. 12.)

O Ritual Romano (que data do século XVI) estabeleceu, para orientar exorcistas, os seguintes indícios por parte do suposto possesso: 1. Falar ou compreender línguas estrangeiras sem tê-las antes aprendido; 2. Revelar coisas secretas ou distantes; 3. Manifestar força física acima de sua idade e condição; 4. E outras manifestações do mesmo gênero, que quanto mais numerosas forem, mais constituem indícios. (Rituale Romanum, Tit. XI, Cap. 1, n. 3.)

Se certas manifestações (como, por exemplo, demonstrar uma força extraordinária, dar uivos animalescos, gritar blasfêmias ou palavrões) podem ser causadas por uma doença, a revelação de pensamentos ocultos ou o conhecimento de coisas que se passam à distância já não podem ter a mesma explicação. Hoje em dia muitas pessoas (infelizmente até sacerdotes) pretendem negar, senão doutrinariamente, ao menos na prática, toda possibilidade de possessão ou infestação diabólica, apresentando explicações pseudo-cientificas em nome da Parapsicologia. A esse respeito observa Mons. Louis Cristiani: querer dar uma explicação natural às manifestações demoníacas pela Parapsicologia é explicar o obscuro pelo mais obscuro ainda...