sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quem sou eu? Quem é o Crucificado?



             Em meio a todo este cenário fico confuso, a angústia toma conta de mim. Quem sou eu neste lugar, o que faço por aqui? Queria poder compreender, não sei ao certo quem sou eu, e nem aquele que está a ser interrogado no tribunal. Quem é este ao qual parece estar abandonado? Por que está aí? O que fez para estar sendo julgado? Mas mais ainda: quem sou eu diante de tudo o que se segue e vejo?
            Existe uma grande chance de eu ser o motivo d’Ele estar sendo julgado. Não terá sido eu que O entreguei? Tantos momentos sem fé, entregue na minha vontade, naquilo que eu acreditava e não na fé que Ele me passava. Eu o entreguei, mesmo convivendo com Ele. Mesmo tendo eu comido no prato junto à Ele. Mesmo sabendo que era amado, e que Ele me fazia um gesto de amor tão grande quando ceávamos. Sim, creio que eu tenho sido esse mentiroso, este ladrão, que fingia amores, que o beijava, mas na verdade estava o entregando para estar aí: amarrado, humilhado, sendo julgado por algo que é inocente. Eu é que deveria ser julgado por trocar um amor tão grande por algumas moedas. Ah, falam de Judas, mas eu sou pior que Judas, pois este não contemplou a Ressurreição.
            Neste momento vejo que o juiz pergunta se queremos que O solte. Viva! Pode ser a oportunidade de desfazer o mal entendido e deixar este inocente ir em paz. Mas o que está acontecendo? Não acredito! Eu estou a gritar para soltar o ladrão. Sim, eu prefiro o ladrão do que o bom Jesus de Nazaré. Quantas vezes não me perguntaram “a tua vontade ou a de Jesus?”, e eu disse a minha vontade. “Os prazeres da carne ou Jesus?” e eu escolhi os prazeres passageiros da carne. A droga, álcool desregrado, "cigarros", adultério, prostituição, soberba, avareza, mentira, impureza, enfim tudo aquilo que é pecado, perguntaram se eu preferia essa vida ou Jesus. E eu com convicção, achando que escolhia a minha felicidade, escolhi o pecado, e mandei escorraçar aquele que tanto me amou e crime algum cometeu para passar o que vai passar.
            Logo eu, que tanto tinha dito a Ele que iria dar a minha vida se preciso fosse. Tantas músicas, não? O que dizer das famosas frases em músicas “oferto a minha vida”, e, no entanto, fui covarde. Eu falo de Pedro, mas este o negou apenas três vezes. E eu? Tenho negado três por dia, por hora, por minuto... Ou minha vida tem sido uma negação? Estão crucificando meu Jesus, e eu não fui capaz de ser como a escrava do Senhor, que permanece firme até à cruz. Ela e o discípulo que Ele tanto amou. E eu: covarde! O galo canta, bate as asas, e anuncia ao mundo inteiro: eis aqui um covarde, que julga Judas pela traição, Pedro pela negação, a multidão por fazer a escolha errada, e, no entanto, eu também tenho feito isso todos os dias da minha vida. Eis o covarde, que foi amado e não tem amado de verdade. Crucifica-O, pois eu não o conheço! Eis o que brada as minhas escolhas pelo pecado. Eis o que brada as minhas concupiscências. Eis o que brada a minha vida de infidelidade diante da cruz daquele a quem tanto nos amou.
            Em meio ao imenso cenário, vejo Ele ser flagelado. O chicote estrala, e fico a ver o resultado de minha escolha errada desde o princípio. Ele era e é a verdadeira felicidade. Agora, está levando bofetadas dos soldados. Estão o humilhando, cuspindo em sua face e pronunciando blasfêmias. Sim, sou eu Senhor. Eu também digo diversas vezes que Tu não me amas, mesmo tendo conhecimento da Tua Santa Cruz. Ó coração incrédulo! Toda vez que peco, ainda mais consciente, é uma chibatada em Jesus. Meu pecado é o dilaceramento do corpo de Jesus. Oh bendito sangue, que lava minha alma. Mas eu não sou digno, pois sou o culpado de toda a humilhação deste Homem-Deus. Este Deus que é Rei. Eu, no meu orgulho, quis ser o melhor de todos, o mais sábio dentre os irmãos, o mais poderoso dentre os poderosos. Mas, no entanto, para Ele que é Rei verdadeiramente, não lhe dei uma coroa de ouro com pedras preciosas. Eu lhe enfiei uma coroa de espinhos na cabeça, ferindo mais ainda aquele que é poderoso e três vezes santo, Aquele que é, o grande Eu Sou. Poderia eu ser ferido, mas a única chaga que Ele abre em mim é a do amor. Sabendo que tudo isso era necessário pra pagar meus erros.
            Lhe entregam Sua cruz, e Ele cai. Levanta-se, e cai. Sua mãe segue de perto. E eu? Eu quero distância da cruz. Talvez por isso tenho o entregado, negado, trocado... Mas me deparo com alguém junto a Ele, O ajudando a carregar a cruz. Eu vejo essa cena sempre: EU TAMBÉM TE AJUDO A CARREGAR SUA CRUZ JESUS! Espere! Não! É ELE QUEM CARREGA A MINHA! Como pode ser assim? Já não bastasse tudo que fez, Ele ainda carrega minha cruz! Como pode Ele carregar a minha cruz mesmo após eu  ter cuspido em Sua face, esbofeteado-o, flagelado-o, humilhado-o em público, desfigurado-o... Não entendo. Mas será que entenderei? Acho que até aquele que o ajudava, na verdade era ajudado por Ele.
            Agora me vejo diante do local em que irão crucificá-Lo. Ele diz ser o Filho de Deus, o rei dos judeus, nosso rei. Mas por que se entregou em nossas mãos assim? Que amor é esse que me constrange? Só sei que Ele trabalhou na terra com amor, com verdadeira caridade; e agora eu estou trabalhando com pregos e martelo. E prego-o no madeiro. Está aí - na cruz - o Cristo Jesus, o nosso Deus! Acabo de crucificá-lo, pois acabo de pecar e me esquecer de Seu amor. Toda vez que peco volto a crucificá-Lo, uma vez que estou a jogar Seu sangue redentor fora. Até o Pai o abandonou. Ele já tinha sido abandonado por mim tantas vezes. Pobre Jesus, ama os piores. E estes relutam em não amá-Lo. Quantas vezes mesmo sabendo da ressurreição, não o abandonei na Capela no Santíssimo Sacramento, preferindo estar com amigos e tantas outras coisas e pessoas, do que lá... junto a Ele que arde de amor. O abandono do Pai foi para reparar o meu abandono... Eu, pobre criatura, tantas vezes abandonei meu Criador.
Mas neste momento da cruz, vejo alguém em especial. Maria, a Sua Mãe, está junto d’Ele. Pelo menos a escrava do Senhor não O abandonou. Olha lá: João! Ele também continuou sem medo, sem vergonha de dizer que ama aquele a qual não tem mais forma humana na cruz. Que triste admitir, há dois mil anos tenho tido ainda vergonha da cruz; escondo-a debaixo da blusa, não falo aos meus amigos, e vivo como um pagão. Por que não me converto? Por que não deixo a vergonha do amor supremo, amor extremo e não passo a anunciá-Lo? Por que ao saber deste amor, e senti-Lo em minha vida, não paro de ser escravo do pecado, e passo a ser como Maria, escravo do Senhor? Falando n’Ela... Ela, Jesus e João conversam... Me aproximarei... Ó CÉUS, QUE AMOR É ESSE QUE ME CONSTRANGE!? Eu fiz tanto mau ao meu bom Jesus, e Ele está me dando um presente fora de lógica; eu não posso aceitar depois de tudo que fiz. Mas Ele me manda aceitar, pois é o Seu amor que supera a minha infidelidade. Ele disse-me: “Filho eis aí a Tua Mãe” dando-me a Sua própria Mãe como minha mãe. E ainda confirmou dizendo a Maria Santíssima: “Mulher, eis aí teu filho”. Ó Jesus, depois de tudo que fiz, como ainda se importa comigo desta forma? Tenho agora como formadora, a mesma que Te gerou e formou. Obrigado, Senhor, pois foi na cruz que deixei de ser órfão de Pai, e também de Mãe.
Tu diz na cruz que não sabemos o que fazemos. Mas, hoje, mais de dois mil anos, sabemos! Perdoai-me se muitas vezes faço tudo isso contigo novamente, mesmo sabendo que ao terceiro dia ressuscitastes! Mas, neste momento, caindo em si, ao ver depositarem teu corpo no sepulcro, que depositem meu pecado, para que meu corpo possa ressuscitar para a glória de Deus.  
Quem sou eu? Acho que me descobri. Sou o homem do século XXI, que muitas vezes até sabe da existência e da Paixão de Jesus Cristo; mas que, infelizmente, continua o traindo, negando, trocando, surrando, flagelando, humilhando, deixando-o nu, crucificando-o novamente, deixando-o morrer (morrendo a fé) as mínguas. Hoje, nós viventes modernos, nem ao menos vinagre damos para Ele beber na cruz, mas o deixamos morrer de sede - sede de almas... Almas que Ele comprou na Cruz dando Seu sangue, sua vida. E, muitas vezes, acabamos que pelo uso irresponsável da nossa liberdade, voltamos à condenação inicial do pecado. Voltemos, então, para o lado aberto de nosso Senhor Jesus Cristo; pois, quando eu ainda o feria,  ao ver que já estava morto, sangue e água jorraram de seu coração aberto. E com este sangue e água, Ele quer lavar a nossa geração. Para quê? Para sermos salvos! Pois para entrar no céu tem que passar pelo lado aberto de Cristo. Temos nós que sermos transpassados também, renunciando tudo pra viver Cristo. Se O negamos e O crucificamos com nossos pecados; a partir de hoje, de agora, possamos, então, proclamá-Lo como verdade, caminho, vida, fonte de nossa salvação; e que possamos viver a vida de santidade que Ele nos ensinou. Esse amor de Deus nos constrange, e por isso devemos nos despojar de nós mesmos, para viver entregue Àquele que nos amou por inteiro - nos amou ao extremo, nos amou na carne.         
Meu Deus eu creio, adoro, espero, e amo-Vos. E peço-Vos perdão por aqueles que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.



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